Os uniformes dos bombeiros portugueses são, na maior parte das vezes, lavados nas casas de cada um e nunca descontaminados, algo que pode ser prejudicial à saúde, dizem os responsáveis das associações de voluntários e de profissionais.

A propósito da exigência dos bombeiros de Maiorca, Espanha, de que também a roupa que usam debaixo dos uniformes seja descontaminada, a Lusa perguntou a representantes dos bombeiros portugueses como era em Portugal e as duas associações negaram que haja qualquer cuidado.

Em Maiorca, os uniformes são descontaminados em Barcelona mas não a restante roupa, que também é exposta a gases e fumos durante um incêndio, e os sindicatos já denunciaram o caso junto da Inspeção do Trabalho, como noticiou o jornal El Mundo.

Em Portugal, no entanto, nem sequer os uniformes são descontaminados, assegura o presidente da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais, Fernando Curto, explicando que, por norma, os bombeiros levam a roupa para casa e são responsáveis pela sua lavagem.

Tal tem o inconveniente, além de não haver uma descontaminação, de as roupas perderem propriedades de resistência ao fogo, por não serem lavadas das formas adequadas.
 

“É uma questão que se impõe, toda a roupa deve ser sujeita a uma descontaminação, mas nada disso é feito”. Alguns lavam em casa e, em alguns quarteis, lavam-se os uniformes mas não a roupa interior, assegura.


Pela saúde dos bombeiros e pela sustentabilidade do fardamento a questão devia de ser tida em conta, diz, assegurando que não há legislação sobre a matéria, apesar de os “decisores políticos” já terem sido alertados. “Também não se faz qualquer rastreio aos bombeiros após um grande incêndio”, afirma.

A matéria também preocupa a Associação Portuguesa dos Bombeiros Voluntários. Quando questionado pela Lusa, o presidente, Rui Moreira da Silva, ironiza e responde: “Se nem sequer se faz uma espirometria [exame dos pulmões] aos bombeiros!”.
 

“A saúde dos bombeiros nunca foi prioritária. Nunca se investiu na proteção respiratória, mesmo as máscaras que filtram as poeiras, não é muito normal vê-las”, diz à Lusa.


A propósito da “normalidade” que é lavar os uniformes em casa, alerta o responsável: “Estamos a falar de produtos químicos, que uma vez misturados podem provocar uma reação. Posso estar a levar para casa produtos cancerígenos dificilmente removíveis, até da máquina de lavar”.

Ainda que no jornal espanhol também se faça essa ligação entre a predominância de diversos tipos de cancro e o ser bombeiro, o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, Jaime Marta Soares, desvaloriza. “Não vejo essa preocupação em incêndios florestais, e, nos que acontecem com matérias perigosas, a roupa, e os bombeiros até, é sempre descontaminada”, diz.

O responsável garante que são tomadas todas as medidas no caso de incêndios com produtos químicos e diz que raramente há situações em que os bombeiros se colocam em risco. E acrescenta: “Se em cada incêndio florestal tivéssemos de descontaminar as roupas, não havia roupas para os bombeiros”.

De resto, diz, não há casos detetados de problemas devido à contaminação dos equipamentos dos bombeiros em incêndios florestais, que ele pelo menos não conhece nenhum em “50 anos a apagar fogos”.

Na notícia do El Mundo fala-se de um relatório dos bombeiros de Madrid, com “evidências científicas da relação entre uma descontaminação inadequada da roupa e o aparecimento de casos de cancro”, e de estudos, como um belga, que dão conta de que roupas contaminadas podem converter-se num meio de transmissão de doenças ao estar em contacto com a pele.

Há alguns anos houve várias mortes de bombeiros em Lisboa, mas nunca se fez um estudo sobre isso, diz Fernando Curto.