O presidente da Associação de Oficiais das Forças Armadas (AOFA) considerou “estranhas e incompreensíveis” as afirmações do subdiretor do Colégio Militar sobre discriminação dos alunos homossexuais e lamentou a demissão do Chefe do Estado Maior do Exército. O coronel Pereira Cracel também "estranhou" a rapidez com que o pedido de demissão foi aceite por Marcelo Rebelo de Sousa. 

O responsável da AOFA disse que os elementos da AOFA ficaram “tristes” com a demissão do general Carlos Jerónimo do cargo de Chefe do Estado-Maior do Exército (CEME).

Ficamos tristes, mas também entendemos isto como algo estranho. (…) Temos um militar na efetividade de serviço que faz declarações, que deveriam ter prévia autorização do chefe [não sei se tinha ou se não tinha] e que são no mínimo infelizes, mas errar é humano, e as consequências deveria sofrê-las”, salientou o coronel, em declarações à Lusa.

De acordo com o presidente da AOFA, o general Carlos Jerónimo, face à gravidade da situação, tomou uma atitude coerente de pedir a demissão.

Contudo, o que nós estranhamos é a rapidez com que o pedido foi aceite. O Chefe do Estado-Maior do Exército pede a demissão face a gravidade da situação e admira que o Presidente da República e o ministro da Defesa tenham aceitado a demissão no imediato”, sustentou.

O pedido de demissão do CEME ocorreu dois dias depois de o ministro da Defesa Nacional lhe ter pedido um esclarecimento a propósito de afirmações feitas pelo subdiretor do Colégio Militar sobre discriminação dos alunos homossexuais.

Colégio Militar, a "gota de água" que levou à demissão

Para a Associação Nacional de Sargentos, “as afirmações do subdiretor do Colégio Militar não terão sido a razão de fundo para a demissão, mas a gota de água que fez transbordar o copo. É um acumular de situações para um homem que, aquando da sua tomada de posse, apostou em executar o mandato tendo em conta o bem-estar dos homens e da missão operacional”. Na opinião do sargento-mor José Gonçalves, “não era uma polémica desta natureza que o iria levar à demissão”.

“Nesse quadro, e não querendo ver o que é evidente, a prova é que ‘o rei vai nu’, porque os problemas que se passam são transversais a todos os ramos das Forças Armadas. Apesar de que as razões para a sua demissão, que vieram a público, serem de ordem pessoal”, argumentou.

De acordo com o presidente da Associação Nacional de Sargentos, o Chefe do Estado-Maior do Exército (CEMA) viu goradas as expectativas que tinha projetado para o mandato. “No nosso entender, não terá conseguido atingir as expectativas que projetou para o mandato”, disse.

Homossexualidade e Colégio Militar

Numa reportagem publicada pelo jornal Observador, o subdiretor do Colégio Militar, tenente-coronel António Grilo, afirmou: "Nas situações de afetos [homossexuais], obviamente não podemos fazer transferência de escola. Falamos com o encarregado de educação para que perceba que o filho acabou de perder espaço de convivência interna e a partir daí vai ter grandes dificuldades de relacionamento com os pares. Porque é o que se verifica. São excluídos".

Ouvido pelo DN, na sequência destas afirmações, o Ministério da Defesa fez saber que pediu explicações ao CEME e assumiu que "considera absolutamente inaceitável qualquer situação de discriminação, seja por questões de orientação sexual ou quaisquer outras, conforme determinam a Constituição e a Lei".

Ministro procura novo Chefe do Estado Maior do Exército

O ministro da Defesa Nacional, Azeredo Lopes, anunciou que já iniciou os procedimentos adequados visando a substituição do general Carlos Jerónimo, que pediu a exoneração do cargo de Chefe do Estado Maior do Exército.