O pai do menor morto pelo militar da GNR Hugo Ernano em 2008 garante que não tinha levado o próprio filho para um assalto e que os militares contaram uma versão diferente dos factos para justificar a morte durante a perseguição policial. Uma versão desmentida pelo próprio Hugo Ernano, que esteve esta quinta-feira no SOS24.

Sandro Ressurreição está na prisão de Alcoentre, a cumprir pena de dois anos e dez meses de prisão efetiva, pelos crimes de resistência e desobediência, prestação de falsas declarações e de coação sobre funcionários.

Entrevistado pelo SOS24, lembra que foi absolvido do crime de roubo, precisamente a razão pela qual os militares da GNR dizem que o perseguiram, naquela tarde de 11 de agosto de 2008. "Não há pai no mundo que leve um filho para um assalto...", afirma.

"Fui condenado inocente, mas não me queixo por isso. Queixo-me porque mataram o meu filho sem estarmos a fazer mal e não lhe deram socorro."

Segundo a sua versão, naquele dia 11 de agosto de 2008, era ele que ia a conduzir “uma carrinha branca”, com o filho e outro homem, quando os militares dispararam.

"O meu filho foi atingido a três metros do carro da polícia. Eu, quando vejo que o meu filho foi atingido, parei, liguei os quatro piscas e pusemos os três os braços de fora."

Sandro Ressurreição conta que os três foram atirados para o chão e que, nessa altura, o filho ainda gritava e pedia água aos militares, que, segundo diz, lhe recusaram socorro durante quase duas horas.

"O meu filho esteve quase duas horas no chão. Eles não chamaram uma ambulância. Trataram-nos como se fôssemos animais. Não deram socorro ao meu filho."

Confrontado com esta versão, Hugo Ernano garante que ele próprio socorreu o menor baleado e que o socorro não demorou muito tempo.

O pai do jovem de 13 anos assegura que foi já nessa altura que os militares dispararam uma vez para a roda do carro, para fabricarem outra versão dos factos. Também garante que não estava armado e que lhe colocaram uma pistola no veículo.

"Eles fazem aquele disparo porque estavam aflitos, não sabiam o que faziam. (...) Eles tinham que arranjar maneira de dizer que o pneu estava furado para dizer que foi numa perseguição."

Já Hugo Ernano garante que fez aquilo para o qual foi treinado, saindo do carro e colocando-se à frente do carro, tendo-o mandado parar antes de disparar.

Sandro Ressurreição admite que, na altura, estava fugido da prisão, por crimes cometidos na sua juventude. "Foram quatro crimes de roubo, nada com armas", resume. Mas assegura que os militares da GNR, durante a perseguição, nem sabiam disso. E que não fizeram nenhum aviso antes de disparar.

"Eu estava evadido de Alcoentre, mas eles não sabiam. A perseguição foi porque, uma semana antes, tinham andado aos tiros com ciganos de Vialonga, que também tinham uma carrinha branca. Eles [GNR] encostaram-se à carrinha, eu ouvi os apitos das sirenes e fizeram os disparos."

Já Hugo Ernano desmente totalmente a história dos outros ciganos de Vialonga, garantindo que foi o mesmo homem a estar envolvido noutro assalto.

Na altura, os três homens que iam na carrinha foram dados como suspeitos de um assalto numa vacaria, que Sandro Ressurreição nega totalmente.

"É mentira. Eu tinha uns ferros dentro da carrinha, mas com carimbo. Eles [GNR] pensavam que conseguiam manobrar os donos [da vacaria], mas os senhores disseram em tribunal que os ferros não eram deles. A juíza entendeu e eu fui absolvido pelo crime de roubo." 

Sandro Ressurreição também garante que eram quatro os militares da GNR que estavam no local, e não três, como conta a outra parte. Até diz saber o nome do quarto militar, tal como assegura ter testemunhas do que se passou.

"Estiveram muitos anos para arranjar essas provas. Eu tenho novas provas para fazer novo julgamento. Tenho testemunhas que viram tudo. Eu sei o nome do GNR que falta. Por que estão a escondê-lo?"

Sandro Ressurreição esteve novamente fugido, durante mais de oito anos, mas garante que se entregou assim que soube que tinham matado o filho.

"Atiraram-me aqui para dentro como um objeto. Só há duas semanas soube do meu processo, estava perdido. Pedi uma oportunidade de liberdade condicional." 

O militar da GNR Hugo Ernano foi condenado a quatro anos de prisão por um crime de homicídio simples por negligência grosseira, com pena suspensa por igual período, e a pagar uma indemnização de 44 mil euros à mãe do menor e outra, de onze mil euros, ao pai. 

Foi ainda suspenso durante oito meses da GNR, período durante o qual recebeu apenas um terço do ordenado. As indemnizações já foram pagas.