Esqueletos de vítimas da Inquisição em Évora, descobertos em escavações realizadas em 2007 e 2008, foram estudados por investigadores das universidades de Coimbra e Évora, tendo o trabalho sido agora publicado numa revista internacional de arqueologia antropológica.

A edição de setembro do Journal of Anthropological Archaeology publica um artigo científico da autoria de Bruno Magalhães e Ana Luísa Santos, do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde da Universidade de Coimbra, e Teresa Matos Fernandes, da Universidade de Évora.

Além de sair nesta publicação da especialidade, a pesquisa efetuada pelos três investigadores é referida num artigo, de terça-feira, da revista norte-americana Forbes.

Os investigadores estudaram esqueletos de 12 vítimas da Inquisição em Évora, dos 13 que foram descobertos, assim como mais 980 ossadas dispersas, em escavações realizadas em 2007 e 2008, na zona do antigo Tribunal da Inquisição, mais precisamente num terreno anexo ao Jardim das Casas Pintadas.

O trabalho destes três arqueólogos permitiu constatar que, destes 12 esqueletos, nove eram do sexo feminino e os outros três do sexo masculino, todos adultos, depositados num local que terá sido usado, entre 1568 e 1634, como “lixeira” da prisão associada ao Tribunal da Inquisição.

Num trabalho científico da sua autoria datado de 2013, consultado hoje pela Lusa, Bruno Magalhães afirma que “a ausência de estruturas e ritualização funerárias e a posição incomum dos esqueletos, com várias orientações, sugerem terem pertencido a prisioneiros ali descartados”.
 

“Um elemento fundamental e comum a quase todos [os esqueletos] é que não foi aberta uma sepultura para a sua colocação”, pois 11 deles “foram depositados diretamente na lixeira”, pode ler-se no trabalho “Os irreconciliados da fé da Inquisição de Évora. Análise paleobiológica de uma amostra osteológica Moderna proveniente do ‘Quintal da limpeza dos cárceres’”.


No artigo do Journal of Anthropological Archaeology, os arqueólogos avançam que o facto de estas vítimas terem sido jogadas nesta “lixeira” sugere, provavelmente, uma forma de punição do corpo e, acima de tudo, do espírito no período após a morte.

Os esqueletos podem ter pertencido a prisioneiros que “morreram antes de terem sido julgados” ou antes de cumprirem “a pena” que lhes foi atribuída pelo seu crime, sugerem, como hipótese, os investigadores, que também indicam que poderiam tratar-se de judeus, mas que não há forma de o provar.

No artigo, os autores defendem a realização de uma escavação arqueológica mais alargada e aprofundada deste terreno, já que, nas campanhas efetuadas em 2007 e 2008, só foi escavada uma área inferior a 21 metros quadrados.

Novas escavações arqueológicas, pode ler-se, poderiam permitir “uma melhor compreensão deste período negro da História caracterizado pela intolerância religiosa na vida e no período pós-morte”.

A Lusa tentou contactar hoje os três investigadores portugueses, mas sem sucesso.