O homem acusado de matar a ex-mulher com 19 facadas, a 13 de agosto de 2013, na via pública em Chelas, Lisboa, remeteu-se esta quarta-feira ao silêncio na primeira sessão do julgamento, que decorre no Campus da Justiça.

«Não quero falar. Não tenho condições de falar. Nunca tive», respondeu o arguido, de 36 anos, que está em prisão preventiva ao abrigo do processo desde 17 de agosto do ano passado, quando questionado pela presidente do coletivo de juízes se queria prestar declarações.

Uma mulher, testemunha ocular, identificou esta quarta-feira o arguido como o autor do crime e acrescentou que a vítima tentou afastar-se enquanto era puxada na rua pelo ex-marido, dizendo-lhe, por diversas vezes, para que a deixasse «em paz».

Durante a sua inquirição, a testemunha referiu que o arguido, no momento em que passou uma outra pessoa, proferiu as palavras «ela é minha mulher e está-me a trair».

Segundo o despacho de acusação, a que a agência Lusa teve acesso, o arguido e a mulher separaram-se em julho de 2013, mês em que o homem, «desconfiando de que a vítima teria um relacionamento extraconjugal», esperou que a ex-companheira saísse do trabalho e seguiu-a, «tendo-a visto entrar com um rapaz» num prédio em Lisboa.

«Desde essa altura nunca mais conseguiu esquecer que ela o enganava com outro homem, pelo que começou a pensar em matá-la. No dia 13 de agosto de 2013, o arguido decidiu ir procurar a vítima para a matar. Saiu de casa de carro e levou consigo uma faca de cozinha com cabo em plástico de cor verde», explica a acusação.

O homem foi até à rua onde morava o namorado da ex-mulher e rasgou dois pneus da viatura da ofendida, que se encontrava no local. Enviou mais de dez mensagens de telemóvel à vítima, para que fosse buscar o filho de ambos, alegando que a criança, hoje com nove anos, tinha caído da cama e ficado com um hematoma na cabeça.

Cerca das 10:00, quando a ex-companheira saiu do prédio, «o arguido desferiu-lhe cerca de 19 facadas em diferentes regiões corporais e cortou-lhe o pescoço», fugindo do local.

A pessoa identificada como namorado da vítima na acusação disse esta quarta-feira ao coletivo de juízes que a conhecia de vista deste novembro de 2012, pois era professor de educação física do filho que a mulher e o arguido tinham em comum, hoje com nove anos.

O homem explicou que se tornaram amigos a partir de junho de 2013, que a mãe da criança passou a frequentar a sua casa, mas assegurou que só se envolveu amorosamente com a ofendida «após a assinatura dos papéis do divórcio», que aconteceu em julho.

À saída do tribunal, o advogado do arguido explicou que a defesa vai apostar na inimputabilidade ou na imputabilidade diminuída, alegando problemas psicológicos.

«É importante perceber qual era o estado de espírito e as condições que o arguido tinha à data dos factos. Quem quer matar alguém dá uma facada e não 19. Não há nada que justifique uma situação destas, mas o estado naquele momento pode diminuir a culpa», explicou Hélder Cristóvão.

O advogado defende a realização de um terceiro exame pericial ao arguido por uma equipa multidisciplinar, uma vez que os dois já realizados apresentam conclusões diferentes: um diz que o arguido tem imputabilidade reduzida, enquanto outro refere que é imputável.

A próxima sessão ficou agendada para 03 de novembro.