A crise económica em Portugal alterou o perfil das pessoas que recorrem à Cais e tornou-o mais jovem e habilitado.

Em entrevista à Lusa a propósito dos 20 anos da associação, a presidente da Cais admitiu que a instituição, que se assume como o último porto dos que perdem casa e trabalho, já não recebe hoje o mesmo tipo de pedidos de ajuda.

«Há 20 anos, estávamos a falar da exclusão dos sem-abrigo, típica da pessoa que está na rua, que já não tem padrões, que já perdeu a noção até do que é a higiene pessoal e perdeu os seus contornos de dignidade», lembrou Anabela Pedroso.

Atualmente, as pessoas que pedem ajuda à Cais «vêm de bairros camarários, não estão na rua, e têm habilitações ligeiramente acima daquelas que recebíamos há 20 anos», explicou.

«Eu diria que temos três tipos de pessoas» a pedir ajuda, adiantou a responsável.

Além dos imigrantes da Europa central, que constituíram durante muito tempo o maior grupo de apoiados pela Cais, a associação recebe hoje pedidos de muita gente que está em vias de perder a casa e jovens pais sem habilitações académicas.

Nomeadamente, diz, «casais na ordem dos 45/55 anos que estão em vias de ficar a viver na rua», a quem a Cais quer «criar novamente condições porque ainda não estão, a nível psicológico e emocional, totalmente destruídas».

«O terceiro grupo, que agora tem aparecido, é de jovens. Na ordem dos 25/30 anos, que já são pais e que não encontram trabalho, até porque não têm habilitações», explicou.

«Depois temos uma parte residual de pessoas que, pela vida, por tudo o que lhes aconteceu, não têm grandes condições para voltarem a ter trabalho a não ser pela revista ou pelo apoio social que damos na própria Cais», concluiu.

Criada em 1994 para ajudar a população marginalizada a voltar ao mercado de trabalho, a associação Cais tornou-se conhecida sobretudo por publicar a revista com o mesmo nome: Cais.

«Já nessa altura tínhamos o objetivo de encontrar um meio de retirar as pessoas da rua ¿ naquele tempo estávamos muito focados nas pessoas mesmo excluídas socialmente ¿ e dar-lhes alguma hipótese de terem o seu dinheiro e é assim que surge a revista», contou Anabela Pedroso.

«Mantemos a revista no mesmo foco, mas ampliámos a diversidade de projetos, não só para as pessoas que já estão excluídas mas também para abranger quem está em vias de exclusão», adiantou.

Quem recorre à Cais já passou por todas ou quase todas as instituições de apoio social e de apoio ao emprego. Já deixaram de receber o subsídio de desemprego, já tiveram ajuda da Cáritas e da Vida e Paz. Então chegam ao «último porto», descreve a presidente da associação.

«Às vezes, são as próprias instituições ou o Instituto de Emprego e Formação Profissional que nos mandam quatro ou cinco pessoas para capacitarmos para poderem voltar ao mercado de trabalho», explicou Anabela Pedroso.

Por isso, a associação criou e está a desenvolver vários programas de ajuda ao regresso ao trabalho.

Entre os projetos destacados por Anabela Pedroso, conta-se o Cais Buy@Work. «Tem sido um dos mais interessantes destes dois últimos anos», disse, explicando consistir numa ajuda para quem está a trabalhar e tem de fazer compras.

O projeto funciona num grupo de sete empresas, às quais está associado um dos colaboradores apoiados pela Cais e que vai à farmácia, à lavandaria ou fazer compras ao supermercado em nome de quem não tem tempo para sair do escritório e realizar essas tarefas.

«Temos já, neste momento, a autossustentabilidade deste nosso colaborador, que vai passar a ter o seu próprio emprego, e vamos criar um novo [projeto], desta vez mais na zona de Lisboa, onde estamos a juntar empresas para criar um outro polo chamado Cais Buy@Work 2», relata.

Outro dos planos da Cais começou agora e conta com a ajuda de uma petrolífera, que se comprometeu a absorver, nos próximos 10 anos, 300 das pessoas apoiadas pela associação.