A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima depositou esta segunda-feira 40 sacos de cadáveres, na rua Augusta, em Lisboa, para evocar as 40 vítimas mortais de violência doméstica em 2012 e assinalar o Dia Internacional para a Eliminação de Todas as Formas de Violência Contra as Mulheres.

Os sacos estavam colocados lado a lado, ao longo de dois quarteirões daquela artéria da baixa lisboeta, como numa morgue ou na zona de impacto de um incidente. No interior, um manequim simulava um corpo.

Cada saco identificava a vítima de violência doméstica pelo género - não pelo nome - e pela relação que mantinha com o agressor, dados a que acrescentava o motivo do crime e o tipo de agressão.

Daniel Cotrim, da APAV, disse à Lusa que esta iniciativa pretendeu homenagear as 40 mulheres assassinadas em homicídio conjugal, em 2012, e as 33 mulheres mortas já este ano, até 20 de novembro, de acordo com dados oficiais.

A APAV quis também alertar para as «consequências gravosas que a violência doméstica, sobretudo contra as mulheres», ainda tem em Portugal.

Sobre a redução do número de crimes face a 2012, Daniel Cotrim explicou que, se por um lado, pode «parecer positivo, e é claramente uma influência das campanhas de informação e de sensibilização que as organizações têm feito», por outro lado, parece que «a crise tem de alguma forma servido como desculpa para se fazer quase tudo, colocando as mulheres no patamar de maior vulnerabilidade face ao resto da população».

A «situação em que Portugal vive, em que não há emprego, há dificuldades de arranjar habitação, e sabendo que a grande maioria» das vítimas abandona a casa com filhos, «é complicado para elas pensarem em questões de autonomia», justificou.

Os gabinetes de apoio à vítima verificam que é cada vez maior o número de pessoas que pedem ajuda, mas sobretudo para avaliar o seu grau de risco e delinear planos de segurança pessoal.

A grande maioria das mulheres foi assassinada no período chamado de «janela de pedido de auxílio».

As mulheres apresentaram queixa, mas a medida de proteção demorou a ser aplicada e acabaram por ser assassinadas.

Noutras situações, as mulheres acharam que podiam dar mais uma oportunidade ao companheiro.

«Aquilo que sabemos sobre homicídio conjugal em Portugal é que ele ocorre, na maioria das vezes, na altura da separação ou quando a vítima está a pensar separar-se do agressor», explicou.