"É um crime com que, cada vez mais, as pessoas não estão a compactuar, nem a ficarem caladas", mas ainda há muito mais a fazer em relação aos idosos", disse Maria de Oliveira, técnica da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, que falava à Lusa a propósito do Dia Internacional de Sensibilização sobre a Prevenção da Violência Contra as Pessoas Idosas, assinalado hoje.

Os casos de violência contra idosos que chegam à associação cresceram de 774 em 2013 para 852 no ano passado, mas a APAV tem a noção que estes “dados podem não espelhar a realidade”, adiantou.

Para apurar esta realidade, a APAV colaborou num estudo realizado entre 2011 e 2014 que “demonstra que há uma prevalência de pessoas idosas vítimas de crime muito elevada [em Portugal] em comparação aos outros países europeus”, adiantou a técnica.

Segundo o estudo, em cada mil portugueses com 60 ou mais anos, 123 podem ser alvo de algum tipo de violência por parte de familiares, amigo, vizinho ou profissional remunerado, quando a média nos outros países da União Europeia é de 21 a 22 em cada mil pessoas.

Maria de Oliveira destacou a importância de datas como a que se assinala hoje para “alertar para estas situações que ainda acontecem e que ainda são pouco denunciadas pela sociedade”, apesar de já existir uma “certa intolerância a este fenómeno”.

Os idosos são “vítimas de vários tipos de crime, desde burlas até às situações de violência doméstica, e tudo isto acarreta a necessidade de sensibilizar os jovens para esta temática, cada vez mais cedo”, mas também alertar os idosos para os vários tipos de crime que podem estar a ser alvo e os profissionais que cuidam destas pessoas.

Para sensibilizar os jovens e crianças para esta temática a APAV tem realizado várias ações de sensibilização em estabelecimentos de ensino: “Achamos que é fundamental”, porque muitas vezes “não têm noção do que é que envolve o envelhecer”.

Além disso, “estas crianças e jovens serão os cuidadores de amanhã e convém sensibilizá-los” para estas questões e explicar-lhe que há várias formas de violência (psicológica, sexual, financeira, física e negligência).

Já os idosos vivem muitas vezes este crime em silêncio porque “têm medo de denunciar”, “têm medo de represálias”, que “ninguém vá acreditar neles”, das consequências legais de estar a denunciar este tipo de situações e de pensarem que são "um estorvo".

Há ainda situações em que os idosos têm possibilidades financeiras, uma boa residência, mas “dependem emocionalmente” do prestador de cuidados que muitas vezes é um familiar.

Para estes idosos, a APAV disponibiliza apoio social, jurídico e psicológico porque sabe que, “com esta população-alvo, o apoio tem de ser muito mais contínuo do que, por exemplo, com uma mulher vítima de violência doméstica”, disse Maria Oliveira.