A criação de plano nacional de educação em proteção civil é, para António Morais, consultor na área de segurança contra incêndios, um imperativo nacional para preparar as populações para os incêndios florestais.

Em Portugal não há uma cultura de segurança”, criticou António Morais, alertando para a necessidade de criar no país “um plano nacional de educação em proteção civil, que abrangeria, obviamente, os incêndios e não só”.

Consultor independente na área de segurança contra incêndios, após mais de 16 anos ligado a corporações de bombeiros e à Proteção Civil de Leiria, António Morais lamentou terem sido abandonadas, ao longo das duas últimas décadas, “algumas tentativas esparsas de semear uma cultura de segurança” no país, onde, se esse esforço for reativado, só se traduzirá em resultados “em três gerações, entre 25 a 30 anos”.

Os organismos públicos [entre os quais os da proteção civil] não têm memória” afirmou à Lusa, lembrando “pessoas que fizeram carreira e dedicaram anos de vida ao estudo, treino e execução” e que, depois de saírem, foram “obliterados”, quando “de bom grado e gratuitamente dariam o seu contributo” na preparação das populações para os incêndios.

Com esse mesmo objetivo Morais chegou o solicitar entrevistas ao comando da Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) para questionar” o que seria feito de 132 quilos de publicações dadas pelo governo da Suécia a quem lá esteve em representação de Portugal, num curso de gestão de grandes acidentes para a formação de um plano nacional de educação em proteção civil”, que nunca chegou a ser feito.

Além do plano, defende a necessidade de “uma campanha sistematizada de informação pública” que transmita “mensagens curtas, breves, incisivas, mas esclarecedoras”, em momentos como “os grandes jogos de futebol”, ou o “intervalo das telenovelas”.

É preciso perceber que estamos a falar com uma população iletrada, idosa, muitas vezes votada ao abandono, que muitas vezes até tem dificuldade em perceber a mensagem”, afirmou, defendendo a constituição de “uma equipa pluridisciplinar e multivalente de serviço municipal de proteção civil que durante todo o ano vá sistematicamente junto dessas pessoas explicar-lhes como se faz uma chamada de socorro, o que é que tem de dizer, quais os números que tem de ter, em números grandes porque muitos deles, coitados, já veem mal”.

Num estádio mais avançado, acrescentou, “seria interessante que fosse possível junto dos corpos de bombeiros locais, aos fins de semana ou quando fosse oportuno, levar essa gente a ver o que é um desenvolvimento de um incêndio e pô-los a apagar situações reais para se familiarizarem com estas coisas”.

Mas ao invés, lamentou, a prática tem sido, abandonar “estratégias” como a implantada há alguns anos no distrito de Leiria, “pioneiro em exercícios de proteção civil nas escolas” ou a ausência de resposta dos Governo a propostas de implementação de projetos educativos.

Entre eles o projeto “Zé baril, mestre da proteção civil”, um programa de educação infantil, que previa que “todas as forças de proteção civil fossem às escolas” desenvolver ‘workshops’ em que os alunos eram postos “a descer em manga de salvamento, a trabalhar com extintores, a rastejar, a aprender os comportamentos num incêndio”

Desenvolvido pela Associação Nacional dos Bombeiros Profissionais, o projeto foi entregue ao Ministério da Educação que “nunca recebeu a associação para implementar tudo aquilo como uma cadeira de formação cívica”, lembrou António Morais.

A associação “ainda hoje faz algumas ações do “Zé baril”, parcialmente suportadas com algumas verbas da ANPC e por mecenas, como câmaras, que entendem a validade da ação”. Mas, sublinhou, “isto não pode viver de boas vontades” sob pena de, sem uma edução para a segurança, se repetir “o que se passou neste triste caso da A12 [com condutores a guiar em contramão devido à proximidade de um incêndio]”, verificando-se “comportamentos errados e graves do público por falta de informação, mas sobretudo por falta de confiança nas forças atuantes”.

Para António Morais, a estratégia passa ainda por, após as eleições locais, “convocar todos os presidentes de câmaras e junta de freguesia, reunidos por distritos, e explicar-lhes quais são as novas funções, quais as ferramentas que têm, o que é que podem mobilizar e fornecer-lhes programas de ação”.

Para o perito em segurança urge ainda cumprir o “imperativo nacional” de, passada esta época dos incêndios, “provocar uma reflexão profunda, um congresso aberto, onde possam ter assento todas as pessoas que estão e que estiveram [envolvidas nos incêndios], para definir o que vamos fazer no futuro”, concluiu.