O ex-alto-comissário das Nações Unidas para os refugiados (ACNUR), António Guterres, sublinhou este domingo que o título de doutor 'honoris causa' pela Universidade de Coimbra contribui para mitigar a saudade que tem da vida universitária.

António Guterres fugiu à tradição da cerimónia, em que normalmente o doutorando se cinge a uma breve alocução, pedindo e agradecendo o título de doutor 'honoris causa', para recordar a "imensa saudade" que tem da universidade, onde esperava fazer carreira, mas que a revolução dos cravos o fez seguir "uma outra vocação".

O também ex-primeiro-ministro, que sonhava "ser investigador de Física" - área que se mantém como "a maior paixão" da sua vida intelectual -, encontra no grau que hoje recebe uma contribuição para se "redimir" da decisão "mais difícil" da sua vida, que foi "deixar a universidade" e "fechar a sete chaves" a preparação do seu doutoramento.

O "choque dos bairros de lata de Lisboa" e o 25 de Abril levaram o ex-líder do PS e ex-presidente da Internacional Socialista a decidir-se por um percurso na política.

No entanto, ficou sempre "uma imensa saudade pela universidade" e uma "dor" de não poder continuar a participar na relação "entre professores e alunos", em que professores aprendem mais do que ensinam, sublinhou.

Guterres disse ainda que o doutoramento é "o momento que permite mitigar essa saudade" daquela que pensava ser a sua vida.

O grau, disse Guterres, justifica-se "mais pelas oportunidades" que a vida lhe proporcionou do que por aquilo que fez, recordando os seus pais, que lhe garantiram os estudos, a possibilidade de, enquanto líder do ACNUR, servir "os mais vulneráveis dos vulneráveis" e o 25 de Abril e o Processo Revolucionário em Curso (PREC), "uma das experiências mais exaltantes que qualquer cidadão pode ter na sua vida".

Durante o seu discurso, o ex-alto-comissário sublinhou ainda que o título de doutor 'honoris causa' pela Universidade de Coimbra é "a mais alta distinção a que qualquer português pode aspirar na sua vida", pela antiguidade e prestígio que esta instituição representa.

Agradecer o passado e a responsabilidade para o futuro

António Guterres afirmou  que a situação é "complexa", mas que pretende fazer valer os seus pontos de vista, aguardando "serenamente" a decisão dos Estados-membros.

"Estou muito tranquilo, fazendo naturalmente o possível para fazer valer os meus pontos de vista, mas aguardando serenamente as decisões da comunidade internacional", disse o ex-alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), que falava aos jornalistas após ter recebido o título de doutor ‘honoris causa' pela Universidade de Coimbra.

Até agora, Guterres tem tido "expressões de grande simpatia e encorajamento", como não teve ainda "nenhuma reação negativa" à sua candidatura à liderança da ONU, notou.

No entanto, "há muitas diferenças de opinião em várias zonas do mundo, sobre se devemos ter um secretário-geral homem ou mulher, se deve ou não ser da Europa de Leste", explanou.

Tenho consciência de que muitos pensam que eventualmente não é a altura de ter um homem da Europa ocidental", constatou.

Face às muitas questões "que estão em cima da mesa, compete aos Estados-membros fazer uma hierarquia dos vários critérios, tendo também em conta a competência e experiência dos vários candidatos", salientou.

Segundo o também ex-primeiro-ministro, a grande obrigação de procurar "fazer render" as oportunidades que recebeu ao longo da vida ao serviço "de quem mais precisa" é aquilo que motiva Guterres a ser candidato a secretário-geral da ONU.

"O Primeiro-Ministro mais amado de Portugal"

A cerimónia contou com a presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, do primeiro-ministro, António Costa, do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, e da ministra da Presidência, Maria Manuel Leitão Marques, que incorporou o cortejo enquanto professora da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC).

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, disse que António Guterres é “a figura mais brilhante” da sua geração e foi, porventura, o primeiro-ministro mais amado de Portugal.

“Já disse várias vezes que o engenheiro António Guterres é a figura mais brilhante da minha geração” e “considero que ele foi, porventura, o Primeiro-Ministro mais amado de Portugal”, afirmou o Presidente da República.

Outros chefes de Governo “suscitaram grandes paixões, mas também grandes oposições”, mas Guterres “nunca teve praticamente nenhuma oposição em Portugal”, sustentou Marcelo Rebelo de Sousa.

“Somos contemporâneos – fizemos uma boa parte do percurso juntos – e é uma grande alegria assistir àquilo que, como ele disse, e muito bem, é a máxima distinção que se pode imaginar no quadro de uma instituição histórica portuguesa, sublinhou ainda o Presidente da República, que falava, ao final da manhã, depois da cerimónia de atribuição daquele título, pela UC, a António Guterres.

Hoje “é um dia grande para a Universidade de Coimbra”, mas é também “um dia grande para Portugal”, concluiu.