Portugal poderá acolher mais 5.000 refugiados, para além dos 4.000 já atribuídos pela União Europeia, e, no imediato, tem disponibilidade para receber 1.250 pessoas. A garantia foi deixada pelo primeiro-ministro, esta segunda-feira, em Atenas, após uma visita a um campo de refugiados. António Costa criticou a carga burocrática inerente à legislação europeia e, neste sentido, quer agilizar os mecanismos de acolhimento de forma bilateral.

"Já disponibilizámos mais 5.000 lugares. O que dissemos foi que temos 1.250 lugares imediatamente disponíveis."

A primeira quota europeia atribuída a Portugal para o acolhimento de refugiados era um pouco superior a 4000 pessoas, mas, entretanto, o executivo português já comunicou a disponibilidade para abrir mais 5000 lugares.

"O número global disponibilizado por Portugal é já superior a 9.000 pessoas.”

Em declarações aos jornalistas após uma visita ao campo de refugiados de Eleonas, António Costa criticou a carga burocrática inerente à legislação europeia em matéria de refugiados. E por isso mesmo, assegurou que ao longo do dia trabalhou com o governo de Alexis Tispras para agilizar de forma bilaterar os mecanismos de acolhimento. 

"A legislação europeia é muitas vezes excessivamente burocrática para permitir de uma forma ágil responder às necessidades das pessoas. Por isso, ao longo do dia de hoje, temos trabalhado com o governo grego no sentido de agilizar de uma forma bilateral os mecanismos de acolhimento. Porventura, caso fosse feita uma aplicação normal da legislação europeia, haveria muita dificuldade em fazer chegar a Portugal em tempo útil muitos dos refugiados que pretendem ir para o país."

O chefe do Governo salientou ainda "a grande mobilização que tem existido da parte da sociedade civil portuguesa" no acolhimento aos refugiados, sobretudo da Plataforma de Apoio ao Refugiados, de outras Organizações Não Governamentais, instituições particulares de solidariedade social, universidades, institutos politécnicos, escolas profissionais e empresas.

De visita a Atenas, António Costa esteve esta segunda-feira com o seu homólogo grego, Alexis Tsipras. Os dois líderes assinaram uma declaração conjunta em que prometem cooperar no âmbito da crise migratória que afeta a Europa. O documento destaca o "enorme desafio" que a UE enfrenta desde o ano passado e condena a construção de "muros" e "barreiras", unilateralmente.

A mesma declaração, que foi distribuída aos jornalistas após o encontro, critica as consequências das políticas de austeridade na União Europeia. No documento, Alexis Tsipras e António Costa consideram que as políticas de austeridade adotadas contribuíram para "deprimir as economias e dividir as sociedades" nos Estados-membros da União Europeia onde foram aplicadas.

Costa diz a refugiados que não tem "a chave da fronteira da Alemanha"

Durante a visita ao campo de Eleonas, António Costa teve de explicar aos refugiados, sobretudo a afegãos e sírios, que não tem meios para ajudá-los a chegar à Alemanha.

"Não tenho a chave da fronteira da Alemanha. Só tenho a chave da fronteira portuguesa", disse António Costa, em inglês, a uma senhora síria, com uma criança de três ou quatro anos ao colo.

Eleonas é um campo de refugiados a cinco quilómetros da capital grega e que alberga atualmente cerca de 1.500 pessoas, sobretudo de nacionalidades síria e afegã, e que é considerado o melhor do país em termos de condições logísticas, principalmente no campo da saúde e ao nível das condições de habitação.

Alguns dos pré-fabricados do campo de Eleonas dispõem de ar condicionado. Têm uma tenda que serve de parque infantil e possui serviços médicos. Mas nenhum dos refugiados parece querer ficar ali, ou em qualquer parte da Grécia, por mais tempo.

Na visita ao campo, o primeiro-ministro português ouviu insistentes pedidos de ajuda para que as fronteiras europeias sejam abertas rapidamente e para que a União Europeia permita o acesso à Alemanha.

Perante estes pedidos, António Costa procurou antes salientar a disponibilidade de acolhimento de Portugal. Só que também alguns dos que o ouviram, sobretudo afegãos, pouco ou nada sabiam sobre o país "vizinho da Espanha".

Já fora do campo e no final da visita, nas declarações que fez aos jornalistas, António Costa apresentou uma explicação para essa enorme vontade de se atingir território germânico.

"É natural que pessoas que fizeram já milhares de quilómetros, com um sonho de realizarem a sua vida num país que têm como referência de prosperidade e de futuro, apresentem alguma dificuldade em reorientar o seu trajeto. O que podemos fazer não é proibir ninguém de ir para outro país, mas comunicar que estamos disponíveis, que temos interesse e é com muito gosto que receberemos pessoas que pretendam viver connosco", disse o primeiro-ministro.

Ao longo da visita, que durou cerca de 45 minutos e que foi guiada por um jovem sudanês, António Costa escutou alguns relatos sobre casos dramáticos de fuga à guerra na Síria - e num deles a ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, verteu mesmo algumas lágrimas.

O primeiro-ministro ficou, por vezes, visivelmente embaraçado em conversas caraterizadas por algum otimismo ingénuo, muitas vezes resultado de informações falsas.

Uma segunda senhora afegã, também com uma criança ao colo, furou a segurança para perguntar a Costa quando é que abriam as fronteiras, dizendo ter a informação isso aconteceria dentro de um mês e que todos então poderiam seguir rumo ao norte da Europa.

"Bem? não sei", disse baixinho o primeiro-ministro, ganhando tempo para a sua resposta: "Sou primeiro-ministro de Portugal, país que não tem fronteira com a Grécia", alegou depois António Costa.

Durante a visita, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, foi seguindo estes e outras episódios atentamente, mas sempre a uma distância de alguns metros. A ministra da Administração Interna, pelo contrário, foi abordada por dezenas de mulheres refugiadas e esteve sempre rodeada de crianças, passeando de mão dada com algumas delas.