O ex-ministro da saúde, António Correia de Campos, afirmou esta quarta-feira, que o Governo está a agir mal sobre o problema dos doentes com Hepatite C. Em entrevista no programa «Política Mesmo» da TVI24, o antigo governante defendeu que não podem ser nem o Infarmed (autoridade para a área dos medicamentos), nem o ministro da Saúde, Paulo Macedo, a escolher os pacientes que devem receber o medicamento vital. Para Correia de Campos, o que está em causa é um caso clínico e não administrativo, e só os médicos têm capacidade para resolver o dilema.

«Não é o ministro que deve decidir essa questão, nem é o presidente do Infarmed que deve decidir essa questão, devem quando muito fixar normas. Mas a decisão de saber onde ocupar os recursos escassos (…), saber se se aplica ao doente A ou ao doente B ou ao doente C, e qual a ordem de intervenção (…) esse critério é um critério profundamente clínico e não podemos estar administrativamente a entrar nessa área. Porque é uma área movediça e extremamente perigosa», sublinhou o ex-ministro.


Os hospitais portugueses começaram, esta quarta-feira, a pedir os 100 tratamentos gratuitos para a Hepatite C oferecidos pela farmacêutica norte-americana Gilead, depois de o Infarmed ter demorado alguns dias a definir critérios muito rigorosos para garantir que todos os doentes tivessem acesso por igual, justo e equitativo, aos tratamentos. 

Os doentes reclamam acesso ao medicamento inovador Sofosbuvir, que só é administrado nos hospitais depois de dada a autorização de utilização excecional, um processo moroso, que, por vezes, pode custar a vida ao paciente. Terá sido o que aconteceu, na sexta-feira, a uma doente que morreu depois de aguardar 10 meses pela autorização de utilização excecional para utilizar o medicamento.
 
Sobre as negociações, que se arrastam há meses, entre o Estado e o laboratório Gilead, que detém a patente do medicamento revolucionário, para conseguir um preço mais baixo do tratamento, que atualmente custa mais de 40 mil euros por doente, António Correia de Campos frisou que não há razão para o medicamento não estar à disposição dos clínicos.
 

«Vamos ser realistas: cinco milhões de euros para tratar 130 doentes [urgentes] também não é nada que o Serviço Nacional de Saúde não possa comportar», defendeu.


Questionado sobre se havia margem de manobra para que a Saúde ficasse incólume aos cortes que todos os setores sofreram por causa das medidas de austeridade, António Correia de Campos apontou que as consequências desses cortes estão agora à vista.
 

«Se não havia margem de manobra, paga-se agora. Estamos a pagá-la em dinheiro. Tudo isto custa muito mais dinheiro. Estamos a pagá-la em mortes porventura desnecessárias e estamos a pagá-la numa agitação pública e numa instabilidade na opinião pública que só é má para toda a gente. E isto não beneficia politicamente ninguém. Só prejudica politicamente toda a gente», constatou.

 
O PS acusou, esta quarta-feira, o ministro da Saúde de ser «o principal responsável político» pelos problemas no acesso a medicamentos para a hepatite C, desafiando Paulo Macedo a avaliar se tem condições para se manter no cargo
 
Para António Correia de Campos, ex-ministro socialista, mais importante do que colocar o lugar à disposição, Paulo Macedo deve sobretudo fazer finca-pé.
 

«Com a situação da Saúde como está, a razão é para o senhor ministro exigir dinheiro ao Governo, exigir mais recursos ao Governo e fazer as reformas que ele devia ter feito», rematou.