«Que não seja dito que não fizemos nada»

É com este lema em mente que esta quarta-feira milhares de «Anonymous» vão para as ruas de 463 localidades e cidades em todo o mundo. É a segunda edição da maior marcha pacífica do globo, e Lisboa e Porto estão incluídas.

Chama-se «Million Mask March» (Marcha de um milhão de máscaras, em tradução livre) e é convocada pelos grupos «Anonymous» de todo o mundo. Unidos com um propósito comum, os «Anonymous» querem lutar contra a corrupção, a desigualdade social, a pobreza e «tomar a terra de volta das mãos dos 1% criminosos». «Através de uma revolução de Ideias, verdade e amor», como se lê no manifesto publicado na página de Facebook oficial do evento.

Em Lisboa, a marcha vai sair da praça do Marquês de Pombal em direção ao Rossio por volta das 18:00, enquanto no Porto sairá da Praça Carlos Alberto até à Praça da Liberdade, também às 18:00. Em ambos os casos, é comum o apelo ao pacifismo do movimento, sendo que o objetivo é mudar mentalidades e despertar o sentimento revolucionário dos portugueses.

João Silva, 36 anos, é um dos seguidores da ideologia «Anonymous» que vai marchar por Lisboa amanhã. Ex-funcionário de uma empresa de telecomunicações, atualmente desempregado, João Silva não suporta ver a indiferença à realidade social do país, especialmente no que toca à pobreza extrema que afeta milhares de cidadãos nacionais. Para este «impulsionador», porque, como o próprio diz, os «Anonymous» são um movimento e não uma organização hierarquizada, esta manifestação tem o objetivo de despertar uma população «acomodada com a pobreza» que tem de passar a reagir.

«A manifestação é contra a injustiça, o controlo do governo, dos media, contra a pobreza extrema em Portugal. Alguma coisa tem de mudar, as pessoas estão acomodadas com a pobreza», disse.



Na página do evento no Facebook, 1100 pessoas dizem que vão estar no Marquês de Pombal. No entanto, no ano passado, muitos dos que disseram «sim», faltaram. João Silva espera que a situação este ano seja diferente, até porque é a segunda edição, e agora já se começam a ver os verdadeiros apoiantes, e não tanto os que seguiam por «ser uma moda».

«A manifestação é uma situação em crescimento. No primeiro ano era moda, era fashion apoiar os Anonymous. No segundo ano já vai quem defende realmente os ideais. Os hackers não, esses não têm interesse em ir pelo que fazem, mas sim os que acreditam simplesmente nos ideais dos Anonymous. No ano passado foi uma desilusão. Muita gente aderiu porque era moda, depois não apareceram»


O que é preciso para ser «Anonymous»?

O movimento «Anonymous» tem ficado conhecido não tanto pelas suas ideologias, mas pela reivindicação de ataques informáticos a grandes grupos económicos e governos. Porém o movimento não é fundamentado nessas ideologias, mas sim no ideal de igualdade na sociedade e no acesso à informação. Em vez de dizer o que é preciso para pertencer ao movimento, João Silva explica o que não é preciso ter ou fazer.

«Não precisas de ser um hacker, não tens de cometer ilegalidade nenhuma. O que podes fazer? Podes falar com os teus amigos, vizinhos, familiares e divulgar os teus ideais. Falar. Não seguir apenas o mainstream. Ajudar os outros, ajudar quem mais precisa. (…) Qualquer pessoa pode ser, desde que tenha uma noção do que se passa no mundo. Agora não podem é andar a partilhar fotografias de instituições de apoio aos animais, dos cãezinhos e outros, e depois passam na rua vêm alguém a precisar de auxílio e não ajudam. Nem olham. É uma hipocrisia»



A máscara de Guy Fawkes – símbolo de protesto e uma proteção



Muitos dos participantes destes protestos usam a máscara de «Guy Fawkes», um símbolo que nos dias de hoje está associado aos «Anonymous», mas que tem uma história muito mais antiga.

A máscara foi desenhada pelo artista David Lloyd para o personagem da história «V de Vingança» (V for Vendetta, de Alan Moore) lançada em 1982 e adaptada para o cinema em 2006. A máscara tenta representar Guy Fawkes, o elemento mais famoso de um grupo que tentou assassinar o rei James I de Inglaterra a 5 de novembro de 1605, ao tentar explodir o parlamento inglês com explosivos.

O ataque falhou, e Guy Fawkes e outros foram sentenciados à morte e executados. Desde então, para muitos, Fawkes é o símbolo da revolta e anarquia, e serviria de inspiração para o personagem V, de «V de Vingança».

Hoje a máscara é automaticamente associada ao grupo «Anonymous», que, tal como Fawkes, se consideram revolucionários. A diferença está na forma de execução. Os «Anonymous» consideram-se pacifistas, e a maioria dos ataques associados a este movimento são informáticos.

A ideia é expor a corrupção e outros crimes, daí que entrem em sites e servidores privados para divulgar nomes e moradas de «infratores», em vez de, como Fawkes, tentarem «mandar pelos ares» a Assembleia da República. A arma é a informação que de outra forma não seria pública.

Em Portugal, os «Anonymous» e outros movimentos como os «OutsidetheLaw» já foram responsáveis por alguns ataques, dos quais se destaca a recente divulgação de 200 e-mails de pessoas ligadas ao Banco de Portugal e ao antigo BES (agora Novo Banco), como forma de protesto pela ajuda do Estado ao banco em crise.

«Não pagamos mais bancos», lia-se na publicação no Facebook dos «OutsideTheLaw» de 22 de agosto.
 
 


João Silva nem sempre concorda com estes ataques, porque considera que alguns acabam por cair na indiferença e não ter o efeito desejado. No entanto, «já há alguns anos» que se identifica com a ideologia dos «Anonymous», e defende o acesso à informação. Defende uma «anarquia respeitosa», daí que seja administrador de algumas páginas de apoio ao movimento.

Já quanto à máscara de Fawkes, João considera que pode ser uma solução para quem não quer ser identificado, nem dar a cara pelo movimento. Questionado sobre se os «Anonymous» não seria um movimento mais eficaz se tivesse um representante, João Silva concorda, e acredita que já existem muitos que usam a máscara apenas como meio de transição.

«A máscara pode servir para esconder quem não quer dar a cara pelo movimento, ou como transição. Eu falo como pessoa livre e conheço pessoas que a usaram e que hoje dão a cara por vários movimentos como, os anti-touradas e outros»