Já lá vão mais de oito décadas de existência. Aquele que é, muito provavelmente, o repórter mais conhecido do mundo, assinala este sábado mais um aniversário, com a certeza de que continua a ser uma das figuras maiores da banda de desenhada. Tintin faz 86 anos, mas continua tão jovem como surgiu ao mundo, em 1929.

«Tintin não é só Tintin. É muito mais. É toda uma galeria de personagens que vamos conhecendo e compreendendo», afirma Alberto Gonçalves.



Livraria Timtimportimtim: Foto: timtimportimtim.com.sapo.pt

Alberto Gonçalves, portuense, 56 anos e «tintinófilo» assumido. Proprietário de uma livraria de banda desenhada na cidade invicta, a Timtimportimtimexplica à TVI24 que começou a ser fã de Tintin quando ainda nem sabia ler e recorda aquele que foi o seu primeiro livro da saga.

«O primeiro livro que tive do Tintin foi o «Tesouro de Rackam, o Terrível». A minha mãe deu-mo numa ida à Confiança, em Lisboa.»

Estes foram os primeiros de muitos quadradinhos que Alberto devorou com afinco. Recorda que comprou a revista das aventuras do repórter desde a primeira à última edição e descreve a ansiedade que vivia, na altura, antes de ir às bancas comprar um novo número.

«Esperava ansiosamente pela sexta-feira para comprar a revista. Formamos mesmo um grupo de leitura, Votávamos nas melhores histórias e dissertávamos sobre o desenrolar das histórias. Mas o mais entusiasta era mesmo eu», admite.

Livraria Timtimportimtim (Foto: Alberto Gonçalves)
Livraria Timtimportimtim, Foto: Alberto Gonçalves

A paixão pelas aventuras de Tintin, sempre acompanhado pelo seu fox terrier, Milu, atravessa o país. Vários quilómetros mais a sul, em Lisboa, a TVI24 encontrou outro «tintinófilo» que também começou a interessar-se pela saga desde tenra idade.

António Monteiro, de 63 anos, indica alguns dos motivos que fazem de Tintin uma obra especial: « os argumentos, quase todos bem urdidos enquanto histórias de aventuras, a variedade de tópicos tratados - do tráfico de estupefacientes à espionagem industrial, da conquista espacial à exploração submarina -, a galeria de personagens, a utilização do humor.»

«Em jovem, não tinha propriamente um grupo com quem partilhar o gosto pela banda desenhada, mas tornei-me membro da associação internacional Amis de Hergé, sediada na Bélgica», revela.

Hoje, porém, a história é bem diferente: António integra um grupo de fãs de Tintin que conta com perto de três dezenas de membros.

Além da admiração que nutrem pela obra de Hergé, estes «tintinófilos» partilham ainda o gosto pelo colecionismo, possuindo várias peças, muitas verdadeiras raridades, relacionadas com Tintin. Livros, revistas, réplicas das personagens... é possível encontrar um pouco de tudo nas coleções destes fãs.

O grupo até se reúne algumas vezes por ano para partilhar ideias sobre os vários temas e questões que as histórias do herói colocam.

«Para além destes encontros, o grupo está em contacto permanente por via electrónica, trocando informações e comentários de toda a ordem sobre os temas pertinentes», destaca.


Coleção de António Monteiro, Foto: António Monteiro

Alberto e António são apenas dois exemplos que atestam a estreita ligação dos portugueses com a obra criada por Hergé, pseudónimo do belga Georges Rémi. Uma aventura que começou poucos anos depois de as primeiras publicações terem surgido em França e na Suíça. Mais do que isso, Portugal foi mesmo o primeiro país a internacionalizar Tintin.

O início desta relação remonta aos anos 30 e leva-nos até ao padre Abel Varzim. Quando estudava Sociologia na Universidade de Lovaina, na Bélgica, o sacerdote entrou em contacto com a obra de Hergé, comprou os direitos e vendeu-os aos responsáveis pela revista juvenil da Rádio Renascença, «Papagaio», dirigida por Adolfo Simões Muller.

Estávamos a 15 de abril de 1936 quando «As Aventuras de Tintin na América do Norte» foi a primeira das histórias publicadas. Pela primeira vez, o repórter ruivo falava outra língua que não o francês ou o flamengo. E também pela primeira vez a obra era publicada a cores - só nos anos 40 é que começou a ser feita a coloração das aventuras.

Mas se os portugueses receberam com afeição as peripécias de Tintin, Hergé também parece ter correspondido a este entusiasmo, na medida em que até criou personagens que falavam a língua de Camões.

O Senhor de Oliveira da Figueira é uma das personagens mais caricatas que se cruza com Tintin. Trata-se de um comerciante que vende frigoríficos a pessoas que não têm eletricidade e carros de bebés a pessoas que não têm bebés. 


Coleção de Daniel Sasportes (Foto: Daniel Sasportes)

Mas agora, com tantas redes sociais, consolas, smartphones, tablets e tantas outras ferramentas tecnológicas que dominam as rotinas, sobretudo as dos jovens,  os quadradinhos tradicionais de Tintin ainda despertam o interesse das gerações mais novas?

«O Tintin ainda hoje cativa jovens leitores. É por excelência o herói do século XX. Acredito que terá um lugar ao lado dos grandes clássicos juvenis como D’Artagnan, Zorro, Ilha do Tesouro, Moby Dick, os romances de Júlio Verne... Todos eles com mais de 150 anos», afirma Alberto Gonçalves.


António Monteiro partilha da mesma opinião e até refere um exemplo concreto.

«Numa iniciativa que organizámos em meados de 2014 e durante a qual tivemos oportunidade de levar cerca de uma centena e meia de crianças (de 5 a 12 anos, na sua maioria) a visitar uma exposição sobre a obra de Hergé, e até a participar num concurso de desenhos inspirados nela, foi possível verificar que as aventuras de Tintin eram bem conhecidas e apreciadas por muitas delas.»



Coleção de Mário Marques (Foto: Mário Marques)

Mais de 20 álbuns de aventuras, traduzidos em 77 línguas, que já venderam mais de 230 milhões de exemplares em todo o mundo. Uma das referências da literatura infanto-juvenil, que ainda hoje continua a atravessar e a unir gerações. Parabéns, Tintin!