A campanha de angariação de fundos para comprar a tela "A Adoração dos Magos", do pintor português Domingos António Sequeira (1768-1837), ultrapassou os 600 mil euros. 

De acordo com o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), a campanha “Vamos Pôr o Sequeira no Lugar Certo”, acaba de ultrapassar os 600 mil euros necessários para a aquisição da obra a privados.

Esta foi primeira campanha em Portugal de angariação de fundos para a aquisição de uma obra de arte para um museu público, e contou com a contribuição de milhares de cidadãos a título individual, instituições, empresas, fundações, escolas, juntas de freguesia e câmaras municipais.

Lançada no ano passado, a campanha “Vamos pôr o Sequeira no Lugar Certo” tinha como objetivo ajudar o museu a adquirir a obra de Domingos Sequeira, pintada em 1828, da qual o MNAA possui o desenho final e vários preparatórios.

A tela de Domingos Sequeira - considerada "insubstituível" pelo museu - faz parte da série “Palmela”, com quatro pinturas religiosas, e o MNAA possui, na sua coleção, os desenhos preparatórios de estudo de todas elas, mas não os respetivos óleos.

O que ditou o sucesso da angariação de fundo

Para a campanha - que terminava no próximo sábado - contribuíram milhares de pessoas, desde muitos cidadãos anónimos a personalidades públicas como o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o novo ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, e entidades privadas e públicas, a mais recente, da Fundação da Casa de Bragança, com 35 mil euros.

Uma das contribuições que o museu considerou ter dado "grande impulso" à campanha foi a da Fundação Aga Khan, de 200 mil euros, a maior doação registada.

De acordo com o sítio da campanha, patrocinar.publico.pt. contribuíram, entre outros, a Fundação Carmona e Costa e a Fundação Luso-Americana, o Automóvel Clube de Portugal, a associação AGIC de guias e intérpretes, os arquitetos Aires Mateus e a galeria Jorge Welsh.

A Sociedade Portuguesa de Autores, o Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil, a associação AGIC de guias e intérpretes, algumas autarquias, como o Município de Cantanhede, pioneiro na doação, e pequenas e médias empresas, de setores que vão da hotelaria à produção audiovisual, passando pelos equipamentos médicos e instalações elétricas.

Em janeiro deste ano, o agrupamento de Escolas Domingos Sequeira, em Leiria, convidou os seus 2.800 alunos a ajudarem o MNAA a adquirir este quadro do seu patrono e, em dezembro, a Associação Nacional dos Municípios Portugueses e a Associação Nacional de Freguesias apelaram à participação das autarquias.

O MNAA tem no seu acervo cerca de 30 obras em pintura e desenho de Domingos Sequeira (1768-1837), cujo trabalho realizado, nas primeiras décadas do século XIX, se situa entre o Classicismo e o Romantismo, de um modo similar a Francisco de Goya, seu contemporâneo na cultura espanhola, segundo o museu.

Devido ao seu talento, Domingos Sequeira conseguiu proteção aristocrática e uma bolsa para se aperfeiçoar em Roma, onde privou com vários mestres e conquistou vários prémios académicos.

Director do museu: Campanha "esmagadora" colocou quadro "no lugar certo"

O diretor do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), António Filipe Pimentel, considerou "esmagadora" a campanha pública de angariação de fundos para a compra de uma tela de Domingos Sequeira, que atingiu hoje os 622 mil euros.

Esta é uma conquista de todos e para todos os portugueses, que colocou um importante quadro no lugar certo", disse o diretor do MNAA, numa conferência de imprensa realizada no museu, com a presença do ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, e de vários parceiros da iniciativa.

Ao longo de seis meses, a campanha pública, inédita no país, conseguiu ultrapassar os 600 mil euros para comprar "A adoração dos Magos"(1828), do pintor português Domingos António Sequeira (1768-1837), que ficará na nova exposição permanente do MNAA, a partir de julho.

O diretor do MNAA agradeceu aos parceiros envolvidos na campanha e às 172 entidades e mais de 15 mil doadores particulares que fizeram donativos para comprar o quadro, sublinhando o facto de o valor ter sido conseguido três dias antes do final da campanha, que termina no sábado, "sem ser necessária a intervenção do Estado".

"Esta campanha atingiu uma escala insólita e esmagadora. Foi uma onda de grande generosidade", salientou António Filipe Pimentel, acrescentando que representa "um ato de cidadania que muitos não acreditaram que fosse possível em Portugal".

O quadro vai continuar em exposição, no 'hall' de entrada do museu, na rua das Janelas Verdes, até sábado, último dia da campanha.

Será depois retirado para ser restaurado, e regressará ao museu a 21 de maio, para ser exibido na Noite dos Museus, altura em que será realizada uma festa de celebração do resultado da campanha.

"A adoração dos Magos" será depois guardada e irá fazer parte da nova exposição permanente do MNAA, no terceiro piso, que se encontra em obras de renovação, reabrindo em julho próximo.

No final da conferência de imprensa, António Filipe Pimentel disse ainda aos jornalistas que o MNAA "irá realizar futuramente outras campanhas no género, quando surgir a obra certa na altura certa".

"A Adoração dos Magos" pertence, a partir de hoje, ao Grupo dos Amigos do MNAA, um dos parceiros principais da campanha, que recebeu as doações na sua conta, e que irá depois fazer a doação ao museu, que passará a ser o proprietário, ao fim de cerca de 200 anos nas mãos de privados.

Quanto ao valor final da angariação - que só termina no sábado -, só será conhecido na totalidade dentro de uma semana, segundo o museu, e o excedente dos 600 mil euros, de acordo com o regulamento da campanha, será usado para a aquisição de outra obra para o MNAA.

O presidente do Grupo de Amigos do MNAA, José Blanco, disse à Lusa que ainda hoje o grupo fará um donativo de 5.000 euros para a campanha.

"Somos o segundo grupo de amigos de museus mais antigo do mundo, a seguir ao grupo do Louvre, em Paris", comentou o responsável, assinalando que celebram hoje 104 anos de existência.

Por seu turno, o ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, disse que gostaria de ver replicada noutras instituições públicas "esta campanha exemplar, de como se consegue mobilizar e sensibilizar a sociedade para a cultura".

"É uma sociedade mais madura e capaz de ir em frente, muito mais do que se pensa", disse o ministro, recordando que o seu antecessor, João Soares, chegou a mobilizar, como tinha anunciado, uma 'task force' para promover a campanha.

Esta foi a primeira campanha em Portugal de angariação de fundos para a aquisição de uma obra de arte para um museu público, e contou com a contribuição de milhares de cidadãos, a título individual, instituições, empresas, fundações, escolas, juntas de freguesia e câmaras municipais.

O MNAA já detinha o desenho final e vários preparatórios de “A Adoração dos Magos”, de Domingos Sequeira.