O autor do ensaio visual que levou à suspensão da revista Análise Social considera que foi vítima de censura. «A mim parece-me um ato de censura», declarou Ricardo Campos à TVI24, depois de ter recebido terça-feira «com surpresa e choque» um e-mail do diretor da publicação, João de Pina Cabral, a dar-lhe conta da suspensão.

 

Para o diretor do Instituto de Ciência Sociais, José Luís Cardoso, que travou a 212ª edição da revista quando esta já se encontrava a ser impressa, o ensaio-visual «A luta voltou ao muro» apresenta uma «linguagem ofensiva», além de ser de «mau gosto e uma ofensa a instituições e pessoas que não podia tolerar», justifica. À TVI24, esclareceu também que o ensaio funciona como ilustração e «não passa pelo processo de avaliação científica», ao contrário das restantes reflexões académicas contidas na Análise Social, que foram «submetidas à avaliação pelos pares».

 

«Mau gosto? Aquilo não é uma revista de decoração, é uma revista científica. Não me parece que o objeto de estudo em si sejam menos dignos dos cientistas sociais», contesta o autor do ensaio visual, que lembra o tempo em que vivemos: «Passam 40 anos do 25 de abril e deve haver liberdade de autonomia para as pessoas em todas as matérias».

 

 

Ricardo Campos, sociólogo, trabalha «há mais de dez anos nesta área», estuda o «uso do mural e da rua como espaço de intervenção e manifestação política». Ilustrador, com 43 anos, um doutoramento e um pós-doutoramento avaliados pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, órgão que lhe concedeu várias bolsas para projetos de investigação, Ricardo Campos apresentou o trabalho à revista e este foi aceite. «Não é um artigo, é um foto-ensaio, que tem um texto de enquadramento e surge num contexto de investigação». Para o sociólogo, a suspensão da publicação «é uma falta de respeito perante um colega da academia e não parece digno de uma revista como a Análise Social. Não são apresentados critérios científicos e académicos para a suspensão deste trabalho», sublinhou à TVI24.

 

A revista Análise Social foi fundada em 1963 pelo sociólogo Adérito Sedas Nunes e tem publicações trimestrais desde essa altura.  É considerada um espaço de referência na reflexão académica na área das Ciências Sociais. É por isso que Ricardo Campos estava longe de imaginar que «um ato desta natureza» lhe poderia ocorrer  - um gesto que classifica de «censura». De referir que o sociólogo já tinha ali publicado anteriormente. «Já tive um texto publicado nesta revista, bem como noutras revistas e em livros.

 

Não há dúvidas para este investigador que «o que se está a passar é um sintoma de outros sintomas». Isto é, «aquilo que melindrou foi o facto de algumas palavras de ordem [nos graffiti] se referirem ao poder político». Por isso, considera que «claramente é um ato de censura» que «está a limitar a liberdade de expressão da academia».

 

 

Ricardo Campos está solidário com o diretor cessante, o antropólogo João de Pina Cabral, que «assumiu o risco» da publicação e que, também em declarações à TVI24 não tem dúvidas de que se tratou de «um gesto de censura».

 

«Não sei se pode ser ofensivo. Aquilo são imagens que tratam uma manifestação política singular que tem a ver com situações que ocorrem no nosso passado mais recente. Fico chocado que um Instituto de Ciências Sociais de renome considere que estes tipos de objetos sejam considerados atentatórios do bom nome das pessoas» citadas nos graffiti.

 

Instalada a polémica na comunidade académica, Ricardo Cardoso, sociólogo investigador do CMRI - Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais da Universidade Aberta e da Rede Luso-Brasileira de pesquisa em Artes e Intervenções Urbanas tem recebido «muitas manifestações de solidariedade e pedidos de amizade no Facebook» desde que a TVI24 tornou pública a suspensão na Análise Social . E também tem recebido «vários pedidos para publicação deste ensaio noutras publicações».