Pedro Neto tem um longo percurso ligado ao voluntariado e à ajuda aos outros. O arqueólogo de 36 anos que há menos de um mês assumiu os destinos da Amnistia Internacional em Portugal já passou por Cabo Verde, Guiné Bissau, Brasil e Angola. Visitou campos de refugiados, acampamentos de Sem Terra e desceu o Rio Amazonas de barco só para chegar até quem precisou dele.

Marcou-me muito uma experiência de trabalho num campo de refugiados em Angola, no final da guerra civil, quando estavam a voltar da Zâmbia. Trabalhar com refugiados, que é gente que nada tem de seu, a quem tudo foi retirado, que vivem para proteger os seus filhos sem saberem qual a próxima refeição lhes vão dar mexeu muito comigo.”

Enquanto conta esta e outras histórias, Pedro Neto olha para a janela do pequeno gabinete na sede da Amnistia Internacional Portugal, no Cais do Sodré, em Lisboa. Não para fugir às perguntas ou ao incómodo da objetiva da câmara, mas para procurar resposta para as questões que o inquietam.

O drama dos refugiados é um dos mais preocupantes em matéria de Direitos Humanos

São pessoas que vivem ou viveram durante muito tempo em espaços em que tudo foi destruído. Se virmos hoje imagens das cidades sírias, está tudo destruído e é incrível como há pessoas que lá conseguem viver”, sublinha.

O jovem arqueólogo que agora tem nas mãos os destinos da dependência portuguesa da AI indigna-se com os travões impostos a quem quer mudar de vida: “É incrível que fechemos as portas às pessoas que tentam ir à procura de melhor, que tentam ter uma vida sossegada como nós temos aqui e tentam dar um futuro melhor aos filhos.”

Isso sim é uma afronta aos Direitos Humanos!”, insiste.

 

“Não é com muitos foguetes de luz que se muda o mundo”

 

No gabinete do novo diretor executivo da AI Portugal destaca-se uma estante embutida na parede. Nas prateleiras três telas. “São os retratos dos meus ídolos”, esclarece Pedro Neto.

Nos retratos, estão Luther King, Nelson Mandela e um homem com uma viola e um bebé pendurado nos joelhos: “É o meu avô e eu, quando era pequenino.”

As telas que adornam o gabinete de Pedro Neto na sede da AI, em Lisboa

Pedro Neto nasceu nos Estados Unidos, onde os pais estavam emigrados. Mas foi na aldeia de Santa Catarina, no distrito de Aveiro, onde vivia o avô, que cresceu a vontade de lutar por quem deixa a terra para fugir à guerra e à fome: “Os meus pais também deixaram tudo para procurar uma vida melhor.”

Foram-me sempre incutidos valores da atenção ao outro, de que sozinhos não valemos de muito e que não vale a pena andarmos na vida se for para andarmos sozinhos.”

Pedro Neto tem no olhar os sonhos de quem acredita que pode mesmo mudar o mundo. Mas não se fica pelos sonhos. Foi um dos fundadores da Orbis, uma organização não-governamental com sede em Aveiro. “A Orbis é uma história muito parecida com o que é o âmago da Amnistia Internacional. Foi gente simples que se juntou, teve a ideia de querer fazer mais, juntaram-se e ousaram sonhar. Eu e um grupo de pessoas juntámo-nos e fundámos a Orbis, na sequência do voluntariado internacional que já tínhamos feito. A Orbis continua um caminho bonito”, diz.

Acredita que é nos pequenos gestos do dia a dia que as grandes mudanças se operam: “A mudança não se faz com grandes acontecimentos que mudaram de um dia para o outro. Vai-se mudando com acontecimentos pequeninos, do dia a dia, contínuos, que vão fazendo a mudança acontecer.”

“Não é uma coisa visível, espetacular, com muitos foguetes de luz e espetáculo, mas é um trabalho contínuo e de silêncio. Esse é que faz a mudança acontecer e acontecer em definitivo.”

Tal como Luther King, que lhe adorna agora o escritório, Pedro tem um sonho: “Acreditamos que, se trabalharmos bem com as pessoas, nas escolas… tenho a impressão que quanto melhor fizermos o nosso trabalho, menos necessária será a Amnistia Internacional no futuro. O ideal é que organizações como a AI deixassem de ser mesmo necessárias.”