Os portugueses passaram a valorizar mais o ambiente, principalmente a natureza, mudando de hábitos devido à crise económica e 60% estão mesmo dispostos a reduzir os padrões de consumo em defesa do planeta, conclui um inquérito.

As pessoas com filhos pequenos, com idades entre os 24 e 44 anos, estão mais ligadas às questões ambientais e sensíveis à sustentabilidade porque "sentiram que, com a crise, quanto melhor ambiente, mais podem usufruir dele", disse à agência Lusa a coordenadora do trabalho, esta segunda-feira.

Isso é uma coisa nova, não se valorizava tanto o ambiente, urbano ou natural, de uso gratuito, e as pessoas sentiram esta necessidade porque já não têm dinheiro para gastar em certo tipo de coisas", defendeu Luísa Schmidt.

Assim, concluiu, "valorizam mais aspetos que garantam a boa qualidade do ambiente até porque diminuíram as férias fora de casa e aproveitam os espaços naturais, as paisagens, e o ambiente funciona como compensação para a crise que retirou de certo modo [as pessoas] do consumismo".

O "Primeiro Grande Inquérito Sustentabilidade em Portugal", realizado pelo Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa para a Missão Sorriso, concluiu que, com a crise económica, "as pessoas foram obrigadas a parar e mudar os seus hábitos de consumo" e dividiram-se em dois grupos.

Um deles reúne os interessados em conhecer os processos de produção e a respeitar os direitos ambientais e sociais, que "ainda é um nicho", embora a opção por produtos biológicos "esteja a aumentar exponencialmente no país", explicou a investigadora.

Alguns acabaram por melhorar a alimentação, comprando diferente, por exemplo, menos, mas de melhorar qualidade, são as pessoas com filhos, mais letradas, que não vivem com rendimentos muito difíceis, e que acabaram por seguir uma forma de vida mais sustentável", salientou.

Mas, acrescentou a especialista, "há um grupo de 15% que tiveram uma grande desqualificação em termos alimentares, que vivem de uma forma muito aflitiva, com constrangimentos económicos e têm menos literacia".

Mais de 23% dos inquiridos respondeu que, com a crise, a sua alimentação se tornou mais saudável, embora sejam 64% aqueles que ficaram "sensivelmente na mesma".

Juntam-se os efeitos positivos e negativos da crise e, enquanto a transferência para produtos saudáveis foi apontada por 18,4% dos inquiridos, a redução do poder de compra é referida por 16%, e somente 1,3% diz que compra menos produtos supérfluos ou tem menos tempo para uma alimentação saudável.

No lazer, por causa da crise, deixou de fazer-se muita coisa e "a ida aos restaurantes é uma loucura", embora os portugueses já estejam a voltar, mas também foram afetadas as atividades culturais e idas ao ginásio, por exemplo, relata Luísa Schmidt.

Cerca de um terço dos inquiridos (31%) diz que passou a ir menos aos restaurantes, 14% refere que passou a levar as refeições para o trabalho e 11% passou a cultivar legumes, frutas ou ervas aromáticas.

No entanto, há ainda um terço que refere não ter alterado os seus hábitos de consumo, percentagem semelhante àquela dos que "não sabem" se estão disponíveis para reduzir os padrões de consumo, atendendo a que, se todas as pessoas do mundo consumissem assim, seriam necessários dois planetas. Cerca de 59% aceita mudar.

À pergunta sobre a que destinaria um aumento do orçamento familiar, a resposta mais frequente é poupança (46%) e férias (43%).

Luísa Schmidt também apontou que a luta contra o desperdício se tornou "uma evidência" entre os portugueses e "não estragar tanto é um grande mote na sociedade portuguesa, o que remete para práticas antigas, mas agora é uma visão moderna ligada à economia circular".

O inquérito presencial foi realizado de 7 de abril a 7 de maio, a 1.500 residentes em Portugal, com mais de 18 anos, numa amostragem aleatária atendendo a região, género, idade e escolaridade, com um intervalo de confiança de 95%.

Substituir carne por proteína vegetal é opção para 45% dos portugueses

Quase metade dos portugueses parecem dispostos a deixar de comer carne e optar por proteínas vegetais, como o grão ou feijão, 54% consideram ter uma alimentação saudável e muitos mais dizem consumir legumes frequentemente, revela ainda o inquérito.

Segundo os dados do "Primeiro Grande Inquérito Sustentabilidade em Portugal", 45% dos participantes manifestaram-se bastante ou muito dispostos a optar por proteínas vegetais, em vez de carne.

No entanto, 38% disseram que estar nada ou pouco dispostos a abdicar da carne na sua alimentação, enquanto 17% ainda estão indecisos.

Já para alternativas mais modernas ou estranhas a disponibilidade não é a mesma pois 80% não estão dispostos a introduzir insetos e minhocas processados nas suas refeições nem a consumir carne de animais clonados, 78% não quer carne de laboratório (in vitro) ou alimentos geneticamente modificados e 72% recusa refeições em pastilhas.

As conclusões acerca dos hábitos saudáveis dos portugueses apontam ainda para idas regulares ao médico da parte de 47%, pelo menos oito horas de sono por noite para 43%, peso vigiado em 41%, além de moderação no consumo de bebidas alcoólicas em 17%.

As medicinas alternativas são utilizadas somente por 6% dos inquiridos, mas o consumo de produtos de agricultura biológica já estão nas casas de 17% dos portugueses, enquanto 13% reconhece a ingestão de suplementos alimentares vitamínicos.

Além do consumo de verduras e legumes da parte de 73% dos inquiridos, a fruta também está na lista de comportamentos associados a uma alimentação saudável (57% de respostas), como a opção por comer várias vezes ao dia (46%) ou a redução por produtos salgados (41%) e de refrigerantes (39%).

Menos adeptos, mas ainda assim quase 20%, têm a preferência por produtos da época e o cuidado em evitar produtos com pesticidas.

Estes comportamentos relacionados com alimentação saudável são sempre mais seguidos pelas mulheres.

Outro tema abordado no inquérito do Observador de Ambiente e Sociedade, do ICS, foi a adesão dos portugueses a medidas ligadas à energia, que é mais elevada na colocação de vidros ou janelas duplos para melhorar a temperatura do interior da casa e quase um terço diz que já fez esta opção.

Entre 60% e 80% dos inquiridos respondem "gostaria" às várias possibilidades apresentadas pela equipa da investigadora Luísa Schmidt, principalmente a instalação em casa de painéis solares, tanto para produção de energia, como para aquecimento de água.