O biólogo da Universidade dos Açores João Pedro Barreiros diz que a localização da maioria das praias açorianas na costa sul das ilhas favorece a concentração de águas-vivas e caravelas-portuguesas em zonas balneares do arquipélago.

«A maior parte das zonas balneares dos Açores ficam na costa sul das ilhas, os últimos ventos fortes foram do quadrante sul e muitas águas-vivas e caravelas-portuguesas foram levadas para perto da costa nas zonas sul das ilhas e portanto ficaram em baías onde estão as zonas balneares. Como não tem havido temporais, como não tem havido ondulação que as remova, acabam por ficar e as pessoas contactam com elas», explica o biólogo.

No entanto, João Pedro Barreiros faz questão de explicar que «este "boom"» de águas-vivas (alforrecas) e caravelas-portuguesas (colónias de animais com longos tentáculos que libertam toxinas e são muitas vezes confundidas com alforrecas) ocorre todos os anos e está associado ao aumento do fotoperíodo, o aumento de horas de luz a partir de março.

«Isso faz com que aumente a fotossíntese no mar e isso acontece ao nível de pequenos organismos fotossintéticos que geram milhões de toneladas de biomassa que, por sua vez, vão criar condições favoráveis para o aparecimento de zooplâncton, ou seja, de micro animais e larvas de animal. Isso despoleta o aparecimento de predadores e as águas-vivas e caravelas são predadores de plâncton e aparecem em grande quantidade porque há muita comida disponível», sublinhou.

O biólogo e autor do livro «Animais marinhos dos Açores, perigosos e venenosos» explica que as caravelas-portuguesas são mais perigosas do que as águas-vivas e por isso é importante saber distingui-las.

«As caravelas têm um flutuador, um género de um balão colorido, uma parte da estrutura da colónia que fica fora de água e que não tem células urticantes, ou seja, não pica, o que picam são os tentáculos, que podem ser muito longos e causar problemas sérios. As águas-vivas não estão à superfície», disse.

O alergologista Rodrigo Alves adianta que nos Açores «o mais usual é ocorrerem queimaduras provenientes do contacto das águas-vivas com a pele» e quase sempre a situação fica resolvida no areal através dos primeiros socorros prestados pelos nadadores salvadores.

«O nosso vulgar vinagre deve ser derramado em cima do local afetado para inativar os restos da água-viva em contacto com a pele. Pode colocar-se também água salgada do mar em bastante quantidade e, à posteriori, para controlar a dor, aplicação de gelo no local ou de cremes indicados para o efeito», explicou o especialista.

Já a água doce é desaconselhável «e pode até ser prejudicial porque pode fazer com que se liberte mais veneno se ainda estiverem em contacto com a pele alguns dos espinhos ou saquinhos que ainda contêm o tal veneno da anémona», esclarece.

Segundo o alergologista, os casos mais graves são normalmente provocados pela caravela-portuguesa e quando a pessoa «é alérgica às substâncias que compõem o veneno», podendo a reação alérgica colocar em risco a vida das pessoas.

No caso de uma pessoa alérgica ao veneno, «requer não só cuidados imediatos no local como o transporte o mais rapidamente possível para o serviço de urgência».