Paulo Cabrita podia ter morrido daquilo que o médico da Medicina do Trabalho acreditava ser rinite, tinha então 39 anos. Não morreu, mas esteve em coma com uma meningite bacteriana. Esta é uma das complicações da perda de líquido do cérebro, que pode ser confundida com o típico corrimento nasal associado a alergias ou constipações.

No entanto, trata-se de líquido cefalorraquidiano (LCR), basicamente, um líquido que protege o cérebro, amortecendo traumatismos e movimentos súbitos do corpo, como um qualquer esforço. É incolor, inodoro e produzido ininterruptamente no cérebro e absorvido pelo organismo através da circulação sanguínea.

Os primeiros sintomas de Paulo Cabrita, de Setúbal, surgiram em 2007: nariz a pingar e de vez em quando fortes dores de cabeça. Mas passou um inverno e uma primavera, sempre a tomar anti-histamínicos, e o nariz continuava a pingar, apesar de no seu caso, sublinhou, o corrimento nem sempre ser constante, havendo dias em que não pingava do nariz.

Assim que baixava a cabeça começava a pingar do nariz, inclusive quando estava sentado. De manhã, quando acordava, tinha a almofada molhada. Andei assim quase um ano, porque não estava sempre a pingar do nariz. Às vezes parava durante uma semana ou mais e depois voltava. Fui a uma consulta de Medicina do Trabalho e o médico disse-me que era rinite e receitou-me anti-histamínicos. Depois, numa viagem de trabalho à Alemanha, senti umas dores de cabeça tão fortes que estive dois dias sem vontade de comer”, contou à TVI24.

Numa noite de junho de 2008 acordou às quatro da manhã cheio de dores de cabeça. Este é um dos sintomas da fístula liquórica (buraco na membrana que envolve o cérebro).

Tomei um Ben-u-Ron mas não conseguia dormir. Por volta das seis, quando me estou a levantar para ir trabalhar comecei a sentir o lado esquerdo a paralisar. Fiquei nervoso e chamei uma ambulância. Quando chegaram tinha a tensão alta, deram-me um comprimido para a tensão e levaram-me para o Garcia de Orta. Depois já não me lembro de mais nada.”

Esteve internado cerca de um mês.

Contaram-lhe que logo à chegada ao Garcia de Orta, o médico que o viu suspeitou de meningite. A meningite é, todavia, uma complicação rara.

Ainda antes de receber o resultado das análises pôs-me a penicilina.”

Mas só ao fim de uma semana, quando deixou os cuidados intensivos e passou para os intermédios, é que conseguiram chegar até à origem do problema.

O corrimento nasal voltou e, por isso, foram chamados primeiro um otorrino e depois um neurologista, que o fizeram reviver um episódio no verão anterior num parque aquático.

No verão de 2007, num parque aquático no Algarve, numa descida num dos escorregas entrou-me água com muita força pelo nariz. Senti de imediato algumas dores, mas passaram”, recordou, não se conseguindo lembrar de qualquer outro traumatismo ou esforço de que tenha sido alvo.

No Garcia de Orta fez uma ressonância e uma TAC e descobriram uma fissura no final do septo nasal.

Foi operado no início de julho de 2008, uma intervenção que consistiu em tapar a fissura com um excerto de osso do próprio nariz, explicou.

Não ficou com sequelas da meningite, mas levou alguns meses a recuperar. Como ficou paralisado do lado esquerdo teve de fazer fisioterapia, não só facial mas também para “reaprender a andar”.

Queria ir trabalhar mas não podia. Não tinha capacidade de resistência e só no final desse ano me deram alta para ir trabalhar.”

Cinco anos depois

Passado cinco anos, em maio de 2013, num passeio pedestre no fim de semana, depois de colocar a filha mais nova sobre os ombros, começou a pingar de novo.

Como sabia o que podia ser, porque no Garcia de Orta fizeram-me um teste de glicémia [com uma gota do nariz em vez da picada no dedo], no dia seguinte, segunda-feira, fui ao posto médico do trabalho e pedi para fazer um teste, que acusou a presença de glicose. Fui diretamente ao neurocirurgião que o meu otorrino me tinha aconselhado, o Dr. Manuel Cunha e Sá."

Já tinha feito uma TAC especial com punção, em 2012, onde foi detetado um buraco, mas não havia fuga. "Era um buraco na base do cérebro por trás do septo nasal", explicou.

Por isso fui operado de urgência na CUF Infanto Santo, a 7 de junho de 2013. Colocaram uma placa sobre o buraco. Gostava que as pessoas soubessem que um simples teste de glicémia pode despistar este problema."

Mas para o neurocirurgião não há neste episódio motivos para alarme.

É uma situação muito rara. Pode ter origem num traumatismo ou num defeito congénito, mas conto pelos dedos de uma mão os casos que tratei de fístulas espontâneas”, explicou Manuel Cunha e Sá à TVI24.

O especialista acrescentou que não é só das narinas que o pingo pode surgir, uma vez que depende da localização do buraco, podendo também haver perda de líquido do cérebro pelos ouvidos.

Mas o essencial para o neurocirurgião é assegurar às pessoas que o que aconteceu ao Paulo Cabrita e à Maria Alice Silveira é, insistiu, “muito raro”.

Manuel Cunha e Sá não vê sequer qualquer ligação a uma eventual alergia ou constipação devido à ausência de outros sintomas que sustentam estes diagnósticos, como por exemplo tosse ou nariz congestionado.

O caso de Maria Alice Silva

O rápido diagnóstico numa consulta de otorrino num hospital privado de Matosinhos conduziu, no mesmo dia, Maria Alice Silva, de 55 anos, às urgências de Neurocirurgia do Hospital de São João, no Porto.

O perigo de poder contrair meningite, devido à abertura no cérebro, obrigou a que ficasse internada em repouso absoluto até à realização de exames e consequente intervenção cirúrgica.

No início, quando os sintomas apareceram, pensámos que seriam alergias, uma vez que a minha mãe tem esse problema”, contou a filha, Patrícia Silva, à TVI24.

Mas, após duas semanas de corrimento nasal, apenas pela narina esquerda, Maria Alice Silva consultou o seu otorrino na CUF Matosinhos. O médico pediu uma análise, através da qual confirmou o diagnóstico.

Estava a perder líquido cerebral e, por isso, tinha de ser vista por um neurocirurgião. O próprio otorrino contactou o serviço de Neurocirurgia do São João, que pediu para que a paciente fosse o mais rápido possível às urgências.

E assim aconteceu. Maria Alice Silva “ficou logo internada”, foi em outubro do ano passado.

E oito dias depois de ter sido operada regressou a casa. Desde então não teve mais sintomas.

Maria Alice Silva não se lembra, porém, de como poderá ter feito aquela fissura.

Não se lembra de ter caído, nem de ter batido com a cabeça. O único momento que encontra para explicar a fissura foi uma queda grave que deu em criança”, contou Patrícia.