A greve dos professores prossegue esta quarta-feira no Alentejo e no Algarve, depois de ter registado uma adesão de 60% a 70% no primeiro dia, segundo dados avançados pelos sindicatos.

É a resposta dos professores à falta de consenso sobre a contagem de todo o tempo de serviço, no processo de descongelamento das carreiras da Função Pública.

No primeiro dia de greve, os sindicatos admitiram estar a ponderar a realização de “uma grande manifestação” e de voltar a agendar uma paralisação no terceiro período de aulas.

A tutela admite descongelar dois anos e dez meses de tempo de serviço aos docentes, mas estes não desistem de ver contabilizados os nove anos e quatro meses, embora admitam um processo faseado.

Manhã atípica "com furos" numa escola em Faro

Uma manhã atípica "com furos” e esperas para ver se os professores vão dar aulas era o cenário visível hoje numa escola de Faro, por causa da greve que se realiza no Algarve e o Alentejo.

A agência Lusa esteve na Escola Básica 2.3. Afonso III, em Faro, e testemunhou o vaivém de estudantes que, de hora a hora, se dirigem para a entrada das salas onde deveriam ter aulas, para ver se o professor fez greve ou não.

Com os funcionários em silêncio, por ordens superiores, um grupo de quatro colegas de uma turma do 9.º ano aceitou falar com os jornalistas quando chegou à escola para ver se, no segundo tempo, iria ter aulas, ao contrário do que acontecera na primeira hora do dia, em que o professor decidiu aderir à greve.

Nós tivemos a primeira hora e agora vamos ver se o professor vem”, disse o aluno do 9.º ano, Carlos Jorge.

Já Ana Lúcia mostrava-se mais aborrecida com a situação: “Não temos aulas, mas temos de vir cá a cada hora”, disse, antes de entrar na escola com os outros colegas.

Segundo Ana Simões, do Sindicato dos Professores da Zona Sul, a situação na Escola Afonso III, em Faro, está a meio gás porque alguns docentes tinham testes marcados e não quiseram prejudicar os alunos.

Em declarações aos jornalistas Ana Simões fez um primeiro balanço provisório de algumas escolas do Algarve: na Escola de Alto de Rodes, em Faro, só dois em oito professores compareceram hoje às aulas; enquanto numa outra escola primária de Faro só um de doze docentes não aderiu à greve e em Olhos de Água, em Albufeira, todos os docentes estariam em greve.

Chuva "acelera" entrada de alunos em escola de Viana do Alentejo

A chuva “acelerou” hoje as entradas na escola de Viana do Alentejo (Évora) e, apesar da greve de professores, poucos foram os alunos que voltaram a sair ou os pais que esperaram para confirmar se havia aulas.

Ao início da manhã, com vento e chuva, houve um “corrupio” junto à Escola Básica e Secundária Dr. Isidoro de Sousa, com muitos pais a optarem pelo automóvel para levar os filhos até à entrada do estabelecimento, mas rumando, logo a seguir, ao trabalho.

Poucos foram os que esperaram para confirmar se havia aulas, mas, para esses, a incerteza durou pouco. No regresso aos automóveis, relataram à agência Lusa, com alívio e passo apressado, tratar-se de “um dia como os outros”, porque "muitos dos professores estão a trabalhar”.

Das crianças e jovens que frequentam a escola, também foram poucos os que, passada a hora do início das aulas, regressaram a casa. Mas houve alguns casos.

Não tenho aulas e, por isso, vou para casa”, disse à Lusa, com ar cabisbaixo, Catarina Farinho, de oito anos e aluna do 3.º ano do ensino básico.

Acompanhada pela mãe e pela avó, Catarina afiançou que gosta “de ter aulas” e preferia ter ficado na escola. Mas já tem programa: “Vou ficar a brincar com a avó”.

Maria Catarina Farinho, a avó, “ganhou” companhia para o dia de hoje, mas realçou que “não é habitual, quando há greve, a professora” da neta “faltar”.

A professora não costuma fazer greve, mas hoje calhou. Ela [Catarina] é que está um bocadinho triste porque vai ficar fechada em casa, sem colegas e sem a irmã, que está na escola”, contou.

Vânia Batista também acompanhou a irmã, Rita, aluna do 2.º ano, que, apesar de a professora ter aderido à paralisação, ficou no estabelecimento.

“Quando a professora não vem, normalmente há um professor de substituição, por isso, têm sempre o dia garantido”, explicou Vânia, resumindo que “não há qualquer perturbação” do seu dia-a-dia, nem do da mãe.

Contactado pela Lusa, Manuel Nobre, do Sindicato dos Professores da Zona Sul (SPZS), disse não ter ainda, por volta das 11:30, dados da adesão à greve de todas as escolas do distrito de Évora, mas frisou que “há várias sem aulas” e outras que estão a “funcionar a meio-gás”.

“A adesão tem estado centrada nas escolas básicas, nos jardins-de-infância e no 1.º ciclo, que é onde se ficou logo a saber, ao início da manhã, se o professor veio ou não. Nas outras, de 2.º e 3.º ciclo e secundárias, a adesão flutua um pouco ao longo do dia”, afirmou.

Segundo dados já divulgados pelo SPZS, a greve chega aos 100% numa escola básica de Évora e em cinco jardins-de-infância do distrito, nos concelhos de Évora, Montemor-o-Novo e Vendas Novas, rondando os 52% na Escola Secundária Severim de Faria (Évora).

Dúvidas sobre aulas baralham rotinas de pais e alunos em Beja

A dúvida sobre se professores faziam greve "baralhou" hoje rotinas e obrigou alunos da Escola Básica de Santa Maria, em Beja, a acordarem cedo na mesma e alguns pais a esperar para confirmarem se havia aulas.

Normalmente, os pais deixam os filhos na escola e "seguem caminho", mas hoje a rotina de alguns mudou devido à greve de professores.

A manhã começou com alunos a entrarem "sem destino certo" no edifício dos 2.º e 3.º ciclos e no centro educativo do 1.º ciclo do ensino básico da escola e pais a esperarem fora para saberem se os filhos tinham ou não aulas.

Hoje não deixei as minhas duas filhas na escola e fui embora como é normal. Tive de esperar para saber se tinham ou não aulas", contou à Lusa Hugo Rosa, de 42 anos.

As filhas, uma de 11 anos e outra de 14, que frequentam, respetivamente, o 6.º e o 9.º anos, acabaram por ficar na escola, porque tiveram as primeiras aulas da manhã, mas sem saberem se os outros professores fazem ou não greve.

"Se algum professor fizer greve e não tiverem alguma aula telefonam-me e venho buscá-las, já que moro perto e hoje posso porque estou de folga", explicou, frisando: "Se estivesse a trabalhar seria mais complicado e teriam de ficar na escola mesmo sem aulas ou em casa sozinhas, o que não gosto que aconteça, ou ir para casa de amigas".

Sofia Canadas, de 43 anos, vai chegar atrasada ao trabalho, porque teve de esperar à porta da escola para "tentar saber o destino" de hoje da filha, que tem 12 anos e frequenta o 6.º ano.

Não teve a primeira aula e vai ter a última, mas ainda não sabe se vai ter as outras aulas pelo meio. Vou tentar saber junto da secretaria. Se tiver fica na escola, se não vou deixá-la no ateliê de tempos livres e falta à última aula, porque não quero que fique na escola sem aulas nem em casa sozinha e não posso levá-la comigo para o trabalho", explicou Sofia, referindo que "muitos colegas" da filha vão ficar na escola, mesmo que não tenham aulas, "porque os pais estão a trabalhar e não podem ficar sozinhos em casa".

Segundo João Sousa, cuja filha, de 11 anos, frequenta o 6.º ano, "uma greve de professores afeta sempre a rotina".

"Estou habituado a deixar a miúda na escola e ir trabalhar descansado. Hoje tive que esperar um pouco", explicou, referindo que a filha "teve a primeira aula e, em princípio, vai ter as outras", mas se não tiver terá de sair por uns instantes do trabalho e voltar à escola para a levar para o ateliê de tempos livres.

A greve também afetou a rotina de Filipa Almeida, que tem três filhos na escola, uma menina, de oito anos, no 1.º ano, e dois rapazes, de 10 e 11 anos, respetivamente, no 5.º e no 6.º anos.

"Os rapazes não deverão ter grande parte das aulas, mas têm de ficar na escola na mesma, porque não tenho onde os deixar e terão de esperar pela hora de cada aula para saberem que professores fazem greve", explicou.

Já a filha teve aulas, mas Filipa Almeida teve de esperar "mais meia hora do que é habitual" e mesmo até à hora de início das aulas, às 09:00, para saber que a professora não fazia greve e, por isso, vai chegar atrasada ao trabalho.

"Normalmente, deixo a minha filha na escola às 08:30, porque trabalho a 20 quilómetros de Beja e entro às 09:00, mas hoje tive que esperar mais meia hora e vou chegar atrasada ao trabalho e passar o dia sabendo que tenho dois filhos na escola que não vão ter grande parte das aulas", disse.

Em declarações à Lusa, Maria da Fé, do Sindicato dos Professores da Zona Sul, disse não poder avançar com uma média de adesão dos professores à greve no distrito de Beja, devido a "dificuldades na recolha de dados junto dos agrupamentos de escolas", e remeteu para dados publicados no sítio de Internet do sindicato.

Os sindicados de professores decidiram agendar esta greve depois de várias reuniões inconclusivas com o Ministério da Educação sobre a contagem do tempo de serviço congelado: a tutela admite o descongelamento de dois anos e 10 meses de tempo de serviço aos docentes, que exigem ver contabilizados os nove anos, quatro meses e dois dias congelados.

A greve decorre esta semana, por regiões, tendo começado na terça-feira nos distritos de Lisboa, Santarém e Setúbal e na Região Autónoma da Madeira.

Na quinta-feira, chega à região Centro e termina sexta-feira no Norte e nos Açores.

Greve com média de 70% adesão

A greve dos professores teve hoje na região sul uma adesão “ligeiramente acima” da registada na terça-feira, nos distritos de Lisboa, Santarém e Setúbal e na Madeira, com “uma média na ordem dos 70%”, segundo a Fenprof.

A greve terá atingido uma média na ordem dos 70%, ligeiramente acima do que já se verificou ontem [terça-feira] e, pensamos nós, com tendência para poder ainda subir nos próximos dias”, afirmou o secretário-geral da Federação Nacional dos Professores (Fenprof), Mário Nogueira.

O dirigente da Fenprof fez o balanço da greve dos professores nos distritos de Évora, Beja, Portalegre e Faro durante uma conferência de imprensa na Escola Secundária Severim Faria, em Évora.

Mário Nogueira indicou que esta manhã já tinha constatado que havia “um aumento” da adesão à greve em comparação com a de terça-feira, assinalando que, no primeiro dia de paralisação, ainda existiam dúvidas entre os docentes.

Os professores “já perceberam melhor” o que está em causa, porque “houve mais algum tempo para fazer esse esclarecimento”, realçou, considerando que a greve de quinta-feira “ainda terá melhores resultados”.

O sindicalista disse que, neste dia de greve, muitas escolas de primeiro ciclo e do pré-escolar, as que têm menos professores, registaram adesões de 100%, indicando que nas escolas secundárias e básicas há “uma média de 70%”.