A morte de uma utente do Alcolar, em Alcochete, por alegada negligência do proprietário é a mais recente queixa de uma longa lista de problemas denunciados à TVI por funcionários e Sindicato.

A mulher, de 87 anos, terá tomado medicamentos de outro utente por volta da hora do pequeno-almoço, mas o INEM só foi chamado cerca das 23 horas.

Esqueceu-se que aquela senhora mexe em tudo. O nosso patrão deixou a caixa da medicação de psiquiatria de outro utente em cima da mesa, então a senhora tomou”, contou um funcionário, sob anonimato.

“Foi de manhã. Ele diz que deu água, azeite, que já tinha comunicado às autoridades que tinha acontecido aquilo e que o mandaram esperar, o que eu duvido. Depois às 23 horas é que foi chamado o INEM. E o bombeiro estava indignado”, prosseguiu outro funcionário.

O Alcolar garante que o INEM foi contactado logo às 9:30, remetendo o caso para o Centro de Informação Antivenenos. E que foram seguidas as indicações aí dadas.

No entanto, à TVI, o INEM confirma vários contactos ao longo do dia do Alcolar para outras ocorrências, nenhuma às 9:30. Para acudir a uma idosa por suspeita de intoxicação medicamentosa o INEM garante que só recebeu uma chamada às 22:52.

A idosa mas acabou por falecer dias depois.

O Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços de Portugal (CESP) apresentou queixa na Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa e o Ministério Público já está a investigar.

O Alcolar acolhe idosos e pacientes com problemas psiquiátricos do Hospital de Setúbal, que vivem em conjunto. Os utentes pagam entre 950 e 1.250 euros por mês.

Funcionários dizem que falta quase tudo

Mas neste lar há muito mais queixas sobre como são tratados os idosos, que ultrapassam o limite dos 27 permitidos pelo alvará. São mais de 30 utentes para nove funcionárias, sendo que apenas cinco lidam diretamente com os utentes.

Os funcionários reclamam, ainda, subsídio de turno, que não lhes é pago, motivo pelo qual já entraram com ações em tribunal.

O Sindicato diz que foram já feitas várias denúncias à Segurança Social e ao delegado de saúde. “Mas não temos resposta. Temos informação de que as autoridades lá vão mas continua tudo na mesma”, afirmou Fernando Pais.

Em resposta ao PCP, o Ministério do Trabalho garantiu, em 2016, que o caso foi encaminhado pelo Instituto da Segurança Social para o Núcleo de Apoio Jurídico, para efeitos contraordenacionais. A ACT também já autuou o proprietário do lar.

Desde 2010 que andamos a denunciar a Alcolar. Queixas que passam até pela falta de comida para os utentes”, indicou Fernando Pais do CESP.  

“Muitas vezes não há nada, não há pão, não há açúcar, não há manteiga, o leite é misturado com água, os cereais são duas mãozinhas de uma chávena de café de Cerelac para 12 acamados. Iogurtes há anos que não há. Muitos passam fome, segundo aqueles que podem falar, porque aqueles que não falam a gente não sabe”, contou outro funcionário.

Na hora da higiene também faltam produtos.

“A caldeira falha e não há água quente. Andámos uma semana a avisar que não havia água quente. Chega a passar uma semana sem tomarem banho”, denunciou outro.

“Uns têm aquecimento no quarto porque a família vai lá com frequência. Os outros não têm. Na sala há um ar condicionado mas ele não quer o ar condicionado ligado porque a conta da luz é alta”, disse.

À TVI, o Alcolar garante que não falta material de higiene, nunca faltou água quente, que até sobeja comida, que todos os quartos e salas principais estão aquecidos e que não tem conhecimento de camas partidas.