O suspeito do homicídio de uma professora encontrada na praia da Aguda, em Sintra, declarou-se, esta terça-feira, «inocente» da morte da sua amiga e considerou que a acusação não tem qualquer «prova direta» do crime.

Na continuação das alegações finais no Tribunal de Sintra, após interrupção da audiência a 4 de setembro, o arguido acusou um jornal, Polícia Judiciária (PJ) e Ministério Público de construírem uma versão dos acontecimentos e que foi «julgado antes do julgamento».

«Não pode existir prova direta por algo que não aconteceu», frisou o arguido, que responsabilizou as autoridades e a filha da vítima de omitirem informações durante as investigações para «condenar um inocente».

O suspeito da morte de Delmira Claro, de 53 anos, encontrada no areal da praia da Aguda, concelho de Sintra, a 1 de abril de 2013, reafirmou que mantinha relações sexuais «ocasionais» com a professora, que tinha «uma vida dupla», dedicando-se à prostituição.

O arguido, residente no Cacém, foi detido a 18 de abril, pela PJ, na posse do carro da vítima e de alguns bens, como chaves e cartões e cadernetas bancárias.

Segundo o Ministério Público, o suspeito deslocou-se na madrugada de 31 de março com a professora até à praia da Aguda, onde a obrigou a dar-lhe os cartões de crédito e de débito e as respetivas senhas.

«A Delmira já me tinha entregado os cartões e os pin», explicou ao tribunal o arguido, acrescentando que a amiga lhe deu a viatura e os cartões para pagamento de verbas que antes tinha emprestado.

Na longa intervenção, o gráfico de profissão criticou os investigadores por não terem recorrido às imagens de postos de combustível e terminais de multibanco em que realizou levantamentos com os cartões da vítima, para comprovar que o fez com o seu consentimento e ainda antes de aparecer morta.

O advogado do arguido, Hélder Fráguas, antes da audiência desta terça-feira, requereu a suspensão das alegações finais, para novas diligências de prova, relacionadas com a hora da morte e inquirição de um homem com quem a professora terá tido um relacionamento sexual na zona da Praia das Maçãs.

O juiz-presidente do coletivo indeferiu os requerimentos por entender que os meios de prova requeridos «não se revelam indispensáveis para a boa decisão da causa» e já tinham sido abordados no processo.

Hélder Fráguas salientou que o arguido deixou a amiga na Praia das Maçãs e que só «teve um comportamento desadequado» ao ficar com o carro e os cartões bancários, mas que isso não constitui crime.

Entendimento diferente teve o Ministério Público, que defendeu na anterior sessão pena de prisão não inferior a 18 anos, pelos crimes de homicídio simples, roubo de cartões bancários e burla informática.

«O relatório da autópsia é claríssimo, bem como são claríssimas as marcas no corpo de socos que fraturaram as costelas da vítima para lhe extrair as cadernetas. A vítima foi mergulhada numa das poças de água que no pico da maré cheia ficavam no fundo da praia», referiu o procurador.

O advogado da filha da vítima pediu também a condenação do arguido por todos os crimes de que está acusado, inclusive ao pagamento de uma indemnização superior a 100 mil euros, por danos materiais e não materiais.

O corpo da professora residente na Charneca da Caparica, encontrado despido da cintura para baixo, sem documentos, sofreu várias pancadas na cabeça, no tórax, nos braços e nas pernas.