Um falso padre acusado de furto de arte sacra numa igreja de Braga e de burla ao respetivo reitor negou esta quinta-feira, no início do julgamento, a prática daqueles crimes, garantindo que apenas quis ajudar uma criança doente.

No entanto, o seu depoimento foi integralmente contrariado pelo reitor daquela igreja, padre Carlos Vaz, que confirmou toda a acusação.

Carlos Vaz disse que o arguido foi falar com ele à sacristia e lhe disse que tinha um filho que precisava de ser operado em Cuba, que já tinha pedido ajuda ao Américo Amorim e ao antigo presidente da Câmara de Barcelos, Fernando Reis, e que já tinha consultado vários médicos, entre os quais Gentil Martins.

«Tinha uma linguagem convincente, com muita modéstia, não levantava qualquer suspeita. Tanto que acabei por apelar na igreja às pessoas para serem generosas», referiu.

Chegou a levar para a igreja uma criança num carrinho de bebé, acompanhado da alegada mãe, para fazer crer que aquele era o menino que precisava de ser operado.

No Tribunal de Braga, Agostinho Caridade explicou que nunca se apresentou como o pai da criança, que se limitou a promover um peditório para angariar meios para uma operação que um menino precisava de fazer em Cuba e que entregou aos pais da criança todo o dinheiro que conseguiu.

«Nunca tirei benefício nenhum com isso», garantiu, confessando que ficou sensibilizado com o caso do «menino Daniel» e decidiu ajudá-lo por ter assistido à morte de duas crianças da família.

No entanto, disse não saber o nome dos pais do menino, recordando-se apenas que o primeiro nome da avó seria Maria.

Disse ainda que a família do menino estará atualmente emigrada em Franca.

A acusação, deduzida pelo Ministério Público, refere que Agostinho Caridade, de 41 anos e natural de Aguiar, Barcelos, promoveu um peditório público em vários locais de Braga, nomeadamente igrejas, em 2012, para o alegado tratamento de um filho seu em Cuba.

Apresentando-se como Vítor Silva e maquinista da CP, foi conquistando a confiança de párocos e sacristães, nomeadamente na Igreja de Senhora-a-Branca.

Em julho desse mesmo ano, pediu 7.200 euros emprestados ao reitor dessa igreja, que «condoído» lhe passou dois cheques, totalizando aquele valor.

O arguido foi a uma loja de cópias pedir que lhe assinassem os cheques, conseguindo assim que o banco lhos pagasse.

Agostinho Caridade, que em tribunal se apresentou como sendo «chefe de cozinha», ainda não devolveu o dinheiro ao reitor, mas garantiu que tem uma conta poupança-reforma na Alemanha e está a tentar que o banco o autorize a levantar o dinheiro necessário para saldar a dívida.

Ainda segundo a acusação, a 4 de março de 2013, e também aproveitando a confiança conquistada junto dos responsáveis da Igreja de Senhora-a-Branca, o arguido conseguiu introduzir-se no templo e furtar duas imagens de arte sacra, um Menino Jesus no valor de 2.500 euros e uma Senhora da Rosa estimada em 5.000 euros.

No dia seguinte, tentou vender as imagens numa casa da especialidade em Braga, mas a gerência desconfiou e chamou a polícia.

Agostinho Caridade pôs-se em fuga, deixando as imagens no local.

O arguido negou o furto das imagens, garantindo que elas estavam em sua posse porque trabalharia já há alguns anos como «intermediário» de um presumível comerciante de arte sacra, do qual apenas sabe que se chama «Carlos».

Disse que, na altura, fugiu do local porque ficou «atrapalhado e envergonhado».

Em maio, a Polícia Judiciária (PJ) deteve-o, em Lisboa, apresentando-o como suspeito da prática dos crimes de furto de obras de arte e bens culturais religiosos, burla, falsificação de documentos e usurpação de funções.

Está em prisão preventiva.

Fazendo-se passar por padre, Caridade presidiu a várias cerimónias religiosas um pouco por todo o país, incluindo um casamento na Sé de Braga.

Já tem duas condenações pelos crimes de usurpação de funções e de burla.