O romance «O meu irmão», de Afonso Reis Cabral, é o vencedor do Prémio LeYa de Literatura, no valor de cem mil euros, foi hoje anunciado na sede do grupo editorial.

O anúncio foi por Manuel Alegre, que adiantou que o autor tem 24 anos e é descendente do escritor Eça de Queiroz. 

«O livro premiado trata de um tema delicado que poderia suscitar uma visão sentimental e vulgar: a relação entre dois irmãos, um deles com síndrome de Down. A realidade é trabalhada de uma forma objetiva e com a violência que estas situações humanas podem desenvolver, dando também um retrato social que evita tomadas de decisão fáceis, obrigando a um investimento numa leitura que nos confronta com a dificuldade de um mundo impiedoso. Há, no entanto, uma tonalidade lírica na relação que se estabelece entre dois deficientes e que salva, através de apontamentos de poesia e humor, o desconforto de quem vive este problema», disse Manuel Alegre.  

Visivelmente emocionado com o prémio, o jovem escritor nem queria acreditar que tinha vencido o prémio. «Acabei de saber, estou nervoso, a assimilar, a situar-me, e para já não consigo dizer muito mais. (…) [Quando soube] estava com um amigo meu, colega de trabalho, e ele sem saber o que se passava, a ver-me a tremer, pensava que eu estava a ter um ataque, só depois é que lhe disse», contou Afonso Cabral à TVI24.

O vencedor do prémio Leya 2014, não quis falar muito sobre a obra que lhe valeu o prémio, mas diz que é baseado nas suas experiências reais, tal como todas as boas obras devem ser. «Naturalmente vem da minha vida, qualquer escritor para escrever, com vida e com matéria séria, tem que ter vivido, tem de saber do que está a escrever. Não pode ser uma ideia abstrata e que não seja dorida, que não seja experienciada. Claro que tem aspetos da minha vida, da minha família».

Sobre o seu trisavô, Afonso Reis Cabral diz que tenta que ele não seja um «peso» na sua escrita, e até agradece não ter «Eça de Queiroz» no nome. «Não quero pensar nisso, [porque] tento que não seja um peso. Felizmente não tenho Eça de Queiroz no nome, embora de facto seja descendente, e isso dá-me uma certa segurança para não ter que pensar muito nele», continuou.

Ao prémio concorreram 361 originais, de autores de 14 países. 

O júri do galardão foi presidido por Manuel Alegre, tendo ainda feito parte os escritores Nuno Júdice, Pepetela, José Castello e ainda José Carlos Seabra Pereira, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Lourenço do Rosário, reitor do Instituto Superior Politécnico e Universitário de Maputo, e Rita Chaves, professora da Universidade de São Paulo.

No ano passado, o galardão distinguiu, pela primeira vez, uma mulher, Gabriela Ruivo Trindade, de 43 anos, portuguesa residente no Reino Unido, pelo romance «Uma outra Voz».

O primeiro vencedor do Prémio LeYa, em 2008, foi o romance «O Rastro do Jaguar», do jornalista brasileiro Murilo Carvalho. Em 2009 venceu o romance «O Olho de Hertzog», do escritor moçambicano João Paulo Borges Coelho, na edição de 2010 o júri decidiu, por unanimidade, não atribuir o Prémio LeYa dada a falta de qualidade dos originais a concurso, em 2011 foi distinguido o romance «O Teu Rosto Será o Último», estreia literária do português João Ricardo Pedro, e em 2012 venceu o português Nuno Camarneiro, com o romance «Debaixo de Algum Céu».