Frederico Delgado, filho do "general sem medo", mostrou-se neste domingo comovido ao discursar na cerimonia de inauguração do novo nome do aeroporto de Lisboa, considerando tratar-se de um "justo reconhecimento" ao pai, Humberto Delgado.

Ao intervir no ato, que decorreu hoje ao fim da manhã no Aeroporto da Portela, em Lisboa, Frederico Delgado, que se escusou depois a falar aos jornalistas, destacou o esforço que o pai, "com a persistência que o caracterizava", dedicou à aviação civil, "organizando-a e gerindo-a de forma a modernizá-la".

"Sempre se norteou por princípios e valores que aplicou nos muitos setores em que foi chamado a servir o país, entre eles a aviação. Assim, muito nos apraz a divulgação desta vertente aeronáutica, para além da fase política da sua vida, sobejamente conhecida dos portugueses", salientou.

"O percurso do meu pai traduziu-se numa diversa intervenção social, humana e política, pois muito embora gostasse de viver e de desfrutar dos simples prazeres, abdicou da sua individualidade pelo todo, em nome dos valores fundamentais da sociedade e da justiça social", referiu, perante o presidente e o primeiro-ministro de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa.

Na mesma cerimónia, onde surgiu ao lado do seu homólogo de Loures, Bernardino Soares, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, considerou a iniciativa como "um ato de justiça histórica", que permitirá defender também a história de Portugal.

"É um dia especial e particular, em que o nome de Humberto Delgado passará a ser o da principal porta de entrada e de saída do país. É um ato de justiça histórica para com uma personalidade que teve uma vida ímpar, de dedicação ao serviço público, de coragem, de desprendimento e de abnegação", afirmou.

Além da vida civil e política, Medina realçou a carreira de sucesso de Humberto Delgado, assassinado em 1965 pela PIDE, destacando o "papel central" no desenvolvimento da aeronáutica militar.

"Este ato de justiça histórica é sobretudo um ato com visão e com sentido de futuro, porque, termos hoje o nome de Humberto Delgado na principal porta de entrada do país, vai fazer com que muitos, à entrada ou à chegada, façam a pergunta sobre quem foi Humberto Delgado.

Por seu lado, Nicolas Notebaert, presidente da empresa Vinci Airports, parceira a Aeroportos e Navegação Aérea (ANA) portuguesa, também destacou a importância do novo nome da infraestrutura lisboeta, e relembrou que 2015 foi um ano de recordes em toda a rede de aeroportos portugueses e que Lisboa "não foi exceção", atingindo 20 milhões de passageiros.

"Estes resultados de sucesso foram alcançados graças ao excelente relacionamento com as autoridades públicas, em particular com o Governo e com a Câmara Municipal de Lisboa. Ao longo destes últimos três anos. Por isso, esperamos encontrar em conjunto soluções para garantir a continuidade deste enorme crescimento, sem limitações ou restrições", afirmou.

Humberto Delgado nasceu a 15 de maio de 1906 em Boquilobo, Torres Novas, e foi assassinado a 13 de fevereiro de 1965, estando sepultado no Panteão Nacional. Estudou aeronáutica, foi adido militar de Portugal, em Washington, além de membro do comité dos representantes da Associação do Atlântico Norte (NATO, na sigla em inglês).

Em 1958, Humberto Delgado aceitou o convite da oposição para ser candidato presidencial - contra Américo Tomás -, desafiando o regime, e recebeu manifestações de apoio um pouco por todo o país, que eram seguidas de perto e reprimidas pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE).

Marcelo saúda iniciativa de Costa e assinala "consenso amplíssimo" sobre Humberto Delgado

O Presidente da República saudou a iniciativa do primeiro-ministro de atribuir o nome de Humberto Delgado ao aeroporto de Lisboa e assinalou o "amplíssimo consenso" existente em Portugal sobre o "general sem medo".

Na cerimónia de renomeação do aeroporto de Lisboa, António Costa defendeu que este era "um ato de justiça histórica" e disse que teve "o privilégio de ter podido propor, como presidente da Câmara Municipal de Lisboa, e de agora poder consagrar, como primeiro-ministro, esta homenagem" a Humberto Delgado.

Em seguida, Marcelo Rebelo de Sousa considerou "simbólico que seja um Governo de esquerda, porventura o mais à esquerda nos seus apoios dos últimos longos anos, a decidir, e um Presidente de centro-direita a dar a chancela a uma homenagem que assim retrata em consenso nacional uma vida e uma obra".

Segundo o chefe de Estado, já "ao romper o 25 de Abril" Humberto Delgado "era referência inquestionável para quadrantes tão diversos como socialistas, sociais-democratas, liberais, sociais-cristãos, comunistas e militantes de partidos de esquerda revolucionária".

"Une-nos a todos a evocação de um vulto decisivo para o que viria a ser aviação, aeroporto, transportes aéreos portugueses, aeronáutica militar. Mas une-nos mais ainda a memória invulgar de um homem invulgar, que recolhe o tal consenso amplíssimo em democracia", acrescentou.

Na sua intervenção, o Presidente da República salientou que esta era uma iniciativa "largamente devida" ao primeiro-ministro, António Costa, "e que o tempo tornou mais premente" e falou na importância dos "arrojados" e "sonhadores" para as democracias.

"Sem os rigorosos, os gestores, os previsíveis, as democracias podem, quiçá, perder-se por falta de sustentabilidade. Mas sem os arrojados, os sonhadores, os pioneiros, elas nunca teriam nascido ou renascido", afirmou.

Referindo-se a Humberto Delgado como "um arrojado, sonhador, pioneiro", o chefe de Estado concluiu: "É justo que a democracia lhe agradeça atribuindo o seu nome a um aeroporto que ele ajudou a lançar muito antes de ter corrido o risco supremo, o da própria vida, para que pudéssemos viver livre e democraticamente em Portugal".