O investigador e académico Adel Sidarus considerou esta quinta-feira o ataque ao jornal satírico francês Charlie Hebdo «uma grande lição» para uma Europa em crise, acreditando que os europeus perceberão finalmente a gravidade da atual situação no Médio Oriente.

O especialista em estudos árabes e islâmicos defende ainda uma ação concertada dos países ocidentais com as nações árabes da região para travar os avanços do Estado Islâmico.

«A situação é grave. Até que enfim que os europeus percebem que o que se passa no Médio Oriente nos últimos meses, com a criação do pretenso estado califal ou estado islâmico, é o grande desafio para o conjunto da região e indiretamente para a Europa e a América», disse Adel Sidarus à agência Lusa.

Cristão copta egípcio, a residir em Portugal há cerca de quatro décadas, Adel Sidarus entende que existe «um centrismo do Ocidente pretensamente cristão que tem tratado muito mal os interesses do Médio Oriente, com a maioria esmagadora de muçulmanos».

Situação que, segundo Adel Sidarus, nos últimos dois anos tem custado caro aos cristãos daquela região, frequentemente alvo de ataques.

O investigador e professor convidado do Instituto de Estudos Orientais da Universidade Católica assinalou o facto de no atentado de Paris estarem alegadamente envolvidos cidadãos franceses, sublinhando que existe uma adesão de jovens europeus «ao Islão não enquanto fé, mas enquanto revolta contra o marasmo em que o mundo está».

«Muitos jihadistas europeus[...] encontram nesta onda de violência e de afirmação violenta uma forma de dizer basta ao marasmo político, económico, social e discriminatório na Europa», disse.

Por isso, entende o investigador, os acontecimentos de quarta-feira são «uma grande lição para a própria Europa, que está em crise» e que «internamente tem que tentar responder aos anseios da população e deixar de se submeter às finanças internacionais que estão a afundar diversos países europeus em crise e revolta».

Para Adel Sidarus era «importante ter previsto» a gravidade da situação vivida em países como o Iraque ou a Síria nos últimos meses e ter agido corretamente.

O académico egípcio rejeita, no entanto, «intervenções intempestivas» como as feitas no Iraque, Afeganistão ou na Líbia e defende atuações «cirúrgicas» concertadas «com países árabes da região».

Para Adel Sidarus, os países europeus têm de estar muito vigilantes e intervir de uma maneira concertada contra o avanço do Estado Islâmico no Médio Oriente porque, considerou, «enquanto estiver em movimento, os interesses internos [dos países ocidentais] estarão ameaçados».

Doze pessoas, entre as quais cinco dos principais caricaturistas do Charlie Hebdo (Charb, Wolinski, Cabu, Tignous e Honoré) e o economista Bernard Maris, foram mortas na quarta-feira quando homens armados atacaram os escritórios do jornal, no centro de Paris.

Os autores gritaram «Allah Akbar» (Alá é Grande) e afirmaram pretender «vingar o profeta» Maomé.

As forças de segurança francesas lançaram uma intensa operação para encontrar dois suspeitos do ataque, identificados como sendo os irmãos Chérif e Said Kouachi, de 32 e 34 anos.

Chérif é conhecido dos serviços antiterroristas franceses, tendo sido condenado em 2008 a três anos de prisão, 18 meses dos quais a pena suspensa, pela participação numa rede de envio de combatentes para a Al-Qaida no Iraque.

Um terceiro suspeito do atentado ao Charlie Hebdo, de 18 anos, entregou-se às autoridades.

O atentado de Paris não foi reivindicado, mas está a ser associado a organizações terroristas como o Estado Islâmico ou a Al-Qaida.