Se houver acusação a José Sócrates - a decisão final do Ministério Público já tem prazo, até 20 de novembro -, a defesa não diz o que irá fazer. O advogado João Araújo está confiante que o inquérito só pode ser arquivado. Em entrevista na TVI24, tentou não responder diretamente a algumas perguntas e teceu, uma vez mais, uma série de críticas à Procuradora-Geral da República e à justiça portuguesa.

"O que eu entendo é que [o inquérito da Operação Marquês] já devia ter sido encerrado. Essa é a sorte necessária, nos termos da lei, deste inquérito: o seu arquivamento. O que a lei diz é que se até ao prazo máximo, o Ministério Público não tiver conseguido reunir provas e factos para acusar, deve arquivar", afirmou, respondendo a questões colocadas pela jornalista Carla Moita.

Isto é mais um prazo que a senhora PGR, que não tem poderes para isso, deu aos investigadores para continuar a fazer estes movimentos. Como não têm factos, arranjam mais uns cavalheiros, umas damas, instalam-nos no processo... Isto é um albergue espanhol.

 

Já devia ter acusado. Esta tendência que existe de procrastinar, antes que eu tenha de admitir que me meti numa trapalhada para a qual não tenho unhas, que prendi um cidadão, achincalheio-o em praça pública e não tinha razão para isto... Talvez de repente me caia no regaço um facto, uma provazeca, talvez ele morra, talvez eu morra, talvez qualquer coisa, à espera de um milagre"

Foi neste tom irónico que João Araújo atirou, ainda, que o arquivamento só ainda não aconteceu provavelmente para a justiça "não ter de admitir que não tem factos nenhuns para acusar".

Conheço razoavelmente as 40 mil folhas do processo, apensos e relatórios. Com base no que li é que não há matéria para acusar ninguém, para acusar o engenheiro José Sócrates, é dele que me ocupo".

A defesa do ex-primeiro-ministro insiste em criticar o "escândalo da manipulação dos prazos" e "a violência que é manter as pessoas amarradas" durante tanto tempo sem uma acusação formal. A data limite de 20 de novembro é, precisamente, a véspera dos três anos da detenção de José Sócrates. "Esse prazo está excedido em dois anos já", sublinhou.

Se há violação tão gritante da lei por que razão é que a defesa ainda não recorreu para instâncias internacionais? João Araújo disse que "é uma possibilidade" que não afasta, mas alegou que um recurso desse tipo "não é fácil, nem é problema da rapidez, tem conjunto de requisitos que, no nosso entender, ainda não estão preenchidos". 

Seja como for, deixou a garantia de que os advogados estão a trabalhar nisso, mas precisam de uma "decisão final, definitiva, das autoridades judiciais portuguesas".

E se vier a haver mesmo acusação? O advogado não levanta o véu ao que a defesa pretende fazer a seguir.

Depende da acusação, depende se vier, não é algo que se possa antecipar...Ainda punha os nossos adversários a estudar e isso era aborrecido para as nossas intenções".