A medicina tradicional chinesa (MTC) «tem de ser combinada» com a convencional e deve ser praticada por alguém com experiência médica, porque não se trata apenas de aprender a espetar agulhas nos sítios certos, defendeu hoje um especialista alemão.

«Um bom acupunturista consegue ler a letra de médico [muitas vezes quase ilegível], deve ser capaz de explicar o que se passa e como vai intervir e aplicar uma solução específica para cada pessoa», disse à Lusa Johannes Greten Heidelberg, médico neurocientista que trabalha há 30 anos com a medicina chinesa e que o antigo diretor Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, Nuno Grande, convidou para ali coordenar um mestrado na área.

O alemão participou esta manhã no 8º. Congresso Internacional de MTC, que se realizou no Auditório do Hospital de Santo António, defendendo a investigação como a chave para o futuro da técnica ancestral, que «nunca pode andar sozinha» e «tem de ser combinada com a convencional».

«Temos de encontrar um sistema para combinar as duas coisas», sustentou.

Para o médico, «o sucesso triplica» quando os acupunturistas têm «algum antecedente ligado à medicina», como «ter sido paramédico» e conhecem o sistema de diagnóstico da MTC.

«[Um especialista] que se limita a colocar agulhas sempre no mesmo sítio é uma pessoa tecnicamente hábil para colocar agulhas, mas inábil cientificamente», explicou.

De acordo com Heidelberg, que integra a Fundação Germano-Chinesa de Investigação de MTC, isso explica a necessidade da investigação no domínio da medicina chinesa e o facto de o congresso, que termina no domingo e reúne «cientista de top internacionais», ter na agenda a divulgação de vários trabalhos de pesquisa científica.

«Se não conseguirmos explicar a um médico ou a um utente o que estamos a fazer, é mais difícil integrarmo-nos. Precisamos de provas científicas e controlo de qualidade», sustentou.

Sobre a integração da MTC no Serviço Nacional de Saúde, o especialista nota que «na Alemanha isso é normal» e que, em Portugal, teria de ser feito de forma «racional», nomeadamente com pessoas «com a aprendizagem correta».

Heidelberg, que leciona no Porto há cerca de dez anos e já vai na sétima turma de mestrado, considera que «a maioria dos médicos não tem nada contra» mas alerta para os lobbies na área da medicina.

«A um nível político não consigo responder», admitiu.

O alemão começou por se formar em medicina, mas logo no primeiro ano conheceu «um mestre do Japão» que colocou na sua cabeça «o vírus da MTC».

«Primeiro, porque [a MTC] ajuda, e não há nada mais importante do que o sucesso. Depois, porque eu achava que era um milagre, uma questão em aberto. Agora contribuí para a desmistificar, para perceber como funciona», descreveu Heidelberg, explicando que levou 33 anos para a entender verdadeiramente.

Para além de investigadores internacionais, o congresso reúne especialistas portugueses, nomeadamente do Porto, Aveiro, Coimbra e Braga.