A única forma de conter o fluxo de refugiados para a Europa consiste em acelerar as negociações de paz para resolver o conflito sírio e ajudar os países vizinhos, defendeu esta sexta-feira o alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados, António Guterres.

"No mundo, 80 por cento dos deslocamentos forçados devem-se a situações de conflito. Se resolvermos as causas que provocam esses deslocamentos, resolvemos a crise de refugiados", disse Guterres numa conferência de imprensa.

Ainda de acordo com o alto comissário, nove em cada dez refugiados sírios residentes no Líbano e na Jordânia vivem abaixo da linha da pobreza desses países.

António Guterres afirmou-se também convencido de que, na origem do fluxo de refugiados sírios para a Europa, esteve o corte de quase 50% nas doses de alimentos entregues pelo Programa Alimentar Mundial (PAM) aos refugiados sírios nos países vizinhos.

O PAM reduziu a ajuda no início do ano devido à falta de fundos, o que agravou a situação já precária da maioria dos refugiados.

Os pedidos de asilo aumentaram em 78% nos primeiros seis meses deste ano face ao mesmo período de 2014, principalmente devido à chegada de sírios à Europa e, segundo Guterres, Bruxelas "agiu tarde e ofereceu muito menos do que aquilo que era necessário".

Para o alto comissário, se as autoridades europeias tivessem estabelecido centros de acolhimento adequados para registar, filtrar e apoiar os refugiados, "não tinham sido os traficantes a organizar a festa" e "a ideia de 'invasão', que não tem base real", não se tinha imposto, levando a uma crescente rejeição dos refugiados por parte da opinião pública.

Perante o atual cenário, Guterres apelou aos líderes europeus em particular e à comunidade internacional em geral para que apoiem intensamente as conversações de paz sobre o conflito na Síria e para que, enquanto isso não acontece, invistam em programas de desenvolvimento nos países vizinhos daquele território.

"Além disso, peço que se implementem programas que permitam levar os sírios diretamente da Turquia, do Líbano ou da Jordânia para a Europa, sem que estes tenham de arriscar a vida", acrescentou.

O mandato de António Guterres termina a 31 de dezembro, após uma década no exercício de funções, mas o alto comissário afirmou-se imensamente "frustrado" por ver que a situação piorou ao longo destes dez anos e que não existem instrumentos para uma solução.

"Há dez anos, falávamos em 38 milhões de deslocados forçados, hoje falamos em 60 milhões. E o pior é que temos menos recursos para lhes oferecer, não conseguindo cumprir a nossa obrigação de os proteger", lamentou.

Segundo o ex-primeiro-ministro (1995-2002) português, em 2010, diariamente, cerca de 11.000 pessoas tornaram-se deslocados forçados, situação que tem vindo num crescendo, com 14.000 por dia em 2011, 23.000 em 2012, 32.000 em 2013 e 42.500 em 2014.