O secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, ordenou à Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) a abertura de um inquérito ao incidente de domingo à noite, no Túnel do Marão, em que um autocarro de passageiros ardeu, ficando completamente destruído, sem que se registassem ferimentos graves nos ocupantes.

Em comunicado, o Governo salienta que o objetivo do inquérito é apurar a hora da ocorrência, fluxos de alerta aos agentes de proteção civil e socorro e despacho de meios.

Entretanto, também o PSD, através do deputado Luís Leite Ramos, eleito pelo circulo de Vila Real, anunciou que quer ouvir no Parlamento o secretário de Estado das Infraestruturas, Guilherme Martins, e o presidente da Infraestruturas de Portugal (IP), António Laranjo, para esclareceram a situação.

Socorro “prontamente ativado”

A Infraestruturas de Portugal (IP) disse entretanto que o plano de emergência do Túnel do Marão foi “prontamente ativado” no incidente de domingo à noite, garantindo eficácia no socorro prestado.

Foi prontamente ativado [o plano] e cumpridos os procedimentos estabelecidos no plano de emergência”, referiu, em comunicado.

A IP referiu que o incêndio foi causado por uma avaria mecânica, não tendo a utilização dos extintores por parte do motorista sido eficaz.

Neste momento, estão a ser desenvolvidos todos os esforços para “com a maior brevidade possível” restabelecer o trânsito no sentido Amarante-Vila Real, referiu a empresa, reforçando que só quando estiverem garantidas “todas” as condições de segurança é que a galeria será reaberta.

Estão a ser avaliados os danos existentes na superstrutura, em conjunto com o projetista e a empresa construtora do túnel. Numa primeira análise os danos são superficiais, mas obrigam, no entanto, à execução da reparação das superfícies de betão”, explicou.

A empresa revelou que existem “danos consideráveis” no pavimento numa extensão de 100 metros, estando já em curso os trabalhos de pavimentação.

Foram ainda identificados “danos relevantes” nos equipamentos, sistemas de segurança, iluminação e comunicações que obrigam a intervenções “mais demoradas” de reparação, aprovisionamento e substituição de componentes, salientou a IP.

Queixas da autarquia

O presidente da Câmara Municipal de Vila Real, Rui Santos, exigiu um inquérito “exaustivo” ao incêndio que carbonizou por completo de um autocarro com passageiros, domingo à noite, no Túnel do Marão, apontando várias falhas à segurança.

Queremos, reivindicamos e exigimos que seja feito um inquérito exaustivo ao acidente de ontem [domingo] que relate o que correu bem e explicite o que correu mal para podermos corrigir essas situações no futuro”, disse esta segunda-feira à agência Lusa.

Segundo o socialista, os acidentes “infelizmente” acontecem, mas as pessoas devem estar preparadas para reagir a esses acidentes.

Na sua opinião, o que ocorreu no túnel resultou "um bocadinho" daquilo que foram as suas denúncias a 23 de dezembro de 2016, quando questionou o facto de o controlo de tráfego ter passado para Almada, no distrito de Setúbal, perto de Lisboa.

O facto do centro de controlo de tráfego ter sido descontinuado em Vila Real e transferido para Almada, e de não terem sido feitos os simulacros que deveriam ter sido realizados, nomeadamente simulacros de incêndio, fez “com certeza” com que a resposta não fosse a “mais desejada e adequada”, considera Rui Santos.

Ocorrência e socorro

Rui Santos afirmou que algumas pessoas, que à hora do acidente estavam no local, contaram que a ambulância do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) foi acionada 15 minutos depois de o incêndio ter deflagrado, tal como sucedeu com a GNR, acrescentando que foram condutores que passavam no local que transportaram pessoas em “pânico e estado de alarme” para o Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro (CHTMAD).

Os extratores de fumo, embora tenham funcionado, numa primeira fase não corresponderam ao que era a expectativa, injetando fumo não para o exterior, mas para o túnel paralelo àquele onde ocorreu o incêndio”, revelou.

Rui Santos recordou que o Túnel do Marão é uma estrutura “complexa” que teve um investimento de sete milhões de euros em sistemas de segurança que podem e devem estar rentabilizados e facilmente operacionais para casos de emergência.

As vidas humanas não têm preço, desta vez tivemos sorte, mas temos de precaver situações de futuro”, realçou.

Liga dos Bombeiros quer incidente esclarecido com urgência

A Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP) defendeu esta segunda-feira que se deve esclarecer “o que de facto se passou” e com “caráter de urgência” no incidente com um incêndio de um autocarro no Túnel do Marão.

Perante as dúvidas levantadas pelo Presidente da Câmara Municipal de Vila Real e depois pelo Senhor Secretário de Estado da Administração Interna, sobre as várias vicissitudes no que respeita à segurança do túnel e do sistema de alerta, aparentemente tardio para as forças de socorro, há que esclarecer o que de facto se passou”, referiu o presidente da LBP, Jaime Marta Soares, numa nota enviada à Lusa.

Referindo que, “em devido tempo”, a Liga “chamou a atenção para as questões relacionadas com a segurança do referido túnel”, a nota da LBP frisa que “importa hoje reforçar a necessidade de, com caráter de urgência, as autoridades competentes esclarecerem todas as falhas (se existiram), de acordo com as posições públicas assumidas por estas mesmas autoridades”.

A organização diz que a informação recolhida “no local do sinistro” junto dos agentes que prestaram socorro “comprova que estes desenvolveram com competência, rigor e profissionalismo, todas as técnicas e práticas necessárias para o êxito da missão, que lhes estava acometida”, e a liga aguarda agora “pelo rápido desenvolvimento do inquérito e respetivas conclusões”.

Prejuízos

Quanto à reabertura total do Túnel do Marão poderá demorar “alguns dias, tal como adiantou hoje a Infraestruturas de Portugal (IP), o presidente da câmara considerou que isso irá trazer “enormes prejuízos” para a economia dos distritos de Vila Real e Bragança, mas sobretudo para a economia do interior.

O túnel é a “ponte” entre o interior e o litoral do país, sendo esta incerteza “prejudicial” para as populações e para as empresas, considerou.

O incêndio de um autocarro com 20 passageiros, da empresa Rodonorte, dentro do Túnel do Marão, ao quilómetro 74 da autoestrada do Marão, entre Amarante e Vila Real, obrigou, no domingo, ao corte do trânsito em ambos os sentidos, mas não causou vitimas.

O trânsito no túnel foi reaberto no sentido Vila Real-Porto, às 06:30 desta segunda-feira, mas a normalização da circulação poderá só estar restabelecida "dentro de alguns dias", informou a IP.

O tráfego na galeria sul, no sentido Amarante-Vila Real, será reposto após se determinar com exatidão a extensão dos danos, o que será feito ao longo do dia de hoje com as equipas da IP e das empresas construtoras e instaladoras”, indica a IP.

A Rodonorte, empresa proprietária do autocarro, anunciou no domingo que vai abrir um inquérito para apurar as causas do incêndio.

O Túnel do Marão, que liga Amarante, no distrito do Porto, a Vila Real, abriu em maio do ano passado e tem duas galerias gémeas, cada uma com duas faixas de rodagem e com um comprimento de 5.665 metros.

O incêndio com o autocarro de passageiros foi o primeiro acidente do género, em dimensão, ocorrido num túnel em Portugal.