Várias centenas de pessoas assistiram esta quarta-feira à tarde ao funeral do casal e da menina de Cinfães que morreram na semana passada num acidente rodoviário em França, no qual mais nove emigrantes portugueses perderam a vida.

Na pequena freguesia de Espadanedo, as bermas da estrada junto à igreja e ao cemitério encheram-se de carros, como constatou a Lusa.

Ainda antes da missa de corpo presente de Jorge Cardoso (39 anos), Angelina Silva (28) e Marta Cardoso (7), o concelho de Cinfães, no distrito de Viseu, despediu-se de Sérgio Costa (35), na freguesia de Travanca.

Para esta quarta-feira à tarde estão marcadas as cerimónias fúnebres das restantes vítimas mortais, noutros seis municípios.

De acordo com uma nota divulgada no site da Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa "solicitou aos presidentes das câmaras dos concelhos de origem" das 12 vítimas "para o representarem nos enterros e para apresentarem condolências pessoais às famílias".

Algumas centenas de pessoas integraram também esta quarta-feira, em Pombal, o funeral da jovem de 17 anos que morreu no acidente.

Pouco passava das 16:00 quando a urna branca com os restos mortais de Inês Francisco deu entrada na Igreja Paroquial de Pombal, depois de o corpo ter estado desde manhã em câmara ardente, num outro templo, a Igreja do Carmo, também no centro histórico da cidade.

No início da cerimónia, interveio uma antiga catequista de Inês Francisco, que entoou um cântico litúrgico com outras pessoas, realçando que, nalguns casos, “cantar é rezar duas vezes”.

O padre que realizou a missa enfatizou a “vida dolorosa” que a generalidade dos emigrantes portugueses enfrenta nos países de acolhimento e lembrou a “ansiedade das famílias” que estão à sua espera em Portugal, especialmente por ocasião do Natal e da Páscoa.

Às cerca de 200 pessoas que assistiram às exéquias, na Igreja Paroquial, juntaram-se muitas mais que se concentravam no exterior, na praça Marquês de Pombal, tendo o cortejo fúnebre seguido para o cemitério local.

 

Moradores e autarcas alertam para falta de segurança nas viagens de emigrantes

Dois dos emigrantes portugueses que na semana passada morreram num acidente de viação em França foram sepultados esta quarta-feira em Oliveira de Azeméis, onde a população espera que a tragédia possa “servir de exemplo” quanto à segurança nos transportes.

Centenas de pessoas compareceram na freguesia de Fajões para participar na cerimónia comum de despedida a Manuel da Rocha Pinho (47 anos) e José Luís Silva (55), ambos emigrados na Suíça e com empregos na construção civil.

Isto é muito triste, mas ao menos que sirva de exemplo para detetar outras situações ilegais que andem por aí sem nós sabermos”, declarou à Lusa Filipe Marques, que conhecia José Luís pela sua ligação ao Futebol Clube Macieirense.

Joaquim Oliveira, ex-emigrante em Friburgo (Suíça), referiu que às vezes se arrisca nas condições das viagens.

É tudo por causa da vontade de cá estar. Também vim muitas vezes de carrinha, porque o patrão só nos dizia à última hora se podíamos tirar férias e, nessa altura, vir de avião já ficava muito caro”, contou.

Joaquim Oliveira reconheceu que, mesmo quando era ele próprio a conduzir, percorria os 1.946 quilómetros de Friburgo a Azeméis “em 18 ou 19 horas”, para chegar mais depressa.

A pouca distância, Arménio Silva ouviu-o e, mesmo sem o conhecer, não conteve o reparo: “Olhe que mais seis ou sete horas em cima disso não eram demais”.

O emigrado em França contou que continua a fazer muitas viagens até Portugal em autocaravana, mas deixou o apelo: “É que não é só a estrada que está em causa e muito tempo a conduzir pode ser um risco para vocês e para os outros”.

Presente no funeral, também em representação do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa - que solicitou aos autarcas que apresentassem as suas condolências pessoais -, o presidente do município, Hermínio Loureiro, revelou que três psicólogos da Câmara têm acompanhado as famílias desde o dia da tragédia.

O presidente da Junta de Fajões, Jorge Paiva, referiu que o apoio foi “bem recebido”, sobretudo num “ambiente muito pesado”, em que todos se mostram surpreendidos pelas circunstâncias do acidente. “Nunca pensei que um furgão de mercadorias estivesse a transportar pessoas”, afirmou.

Com funeral à mesma hora, Adriano Jesus Sousa, outra vítima mortal do acidente perto de Lyon, foi sepultado no cemitério de Escariz, concelho de Arouca, no mesmo distrito. O emigrante tinha 52 anos e também trabalhava na Suíça.

Contactado pela Lusa, o presidente da Câmara Municipal de Arouca, José Artur Neves, também se mostrou preocupado pelas condições do transporte utilizado pelos emigrantes que morreram na semana passada.

Uma carrinha adaptada, sobrelotada, fora de básicas condições de prevenção e segurança, supostamente a sair de países considerados modelos de desenvolvimento socioeconómico e intransigentes no rigor, parece primário de mais para ser verdade. Mas este é um modelo de transporte muito utilizado pelos nossos emigrantes e foi isso o que mais me chocou neste acidente – saber desta desumanidade, imprópria em todos os sentidos”, referiu.