Dois casais de abutre-preto estão a nidificar no Alentejo, o que poderá ser «o primeiro passo» no restabelecimento de um núcleo reprodutor da ave, criticamente em perigo de extinção, após várias décadas sem se reproduzir no sul de Portugal.

Os casais começaram a nidificação em ninhos artificiais instalados na Herdade da Contenda, no concelho de Moura, no distrito de Beja, no âmbito do projeto LIFE «Promoção do Habitat do Lince-ibérico e do Abutre-preto no Sudeste de Portugal», explica a Liga para a Proteção Natureza (LPN), num comunicado enviado hoje à agência Lusa.

A ocupação dos dois ninhos artificiais «representa um sucesso das medidas» do projeto e «um importante marco na conservação do abutre-preto em território nacional», sublinha a LPN, lembrando que há mais de 40 anos que não havia reprodução de abutre-preto confirmada a sul do rio Tejo em Portugal, tendo neste período «apenas sido registada uma tentativa de nidificação (falhada)» em 1996 e também na Herdade da Contenda.

Os dois casais reprodutores de abutre-preto foram detetados em resultado da monitorização das plataformas artificiais de nidificação efetuada pela LPN e após o esforço de conservação levado a cabo pelo projeto, que terminou em setembro de 2014.

Numa visita recentemente realizada, registou-se a instalação de dois casais de abutre-preto em dois dos ninhos artificiais instalados pelo projeto no concelho de Moura e confirmou-se a presença de um exemplar da espécie em incubação num dos ninhos e a deposição de material de revestimento noutro, o que «corresponde ao início do desejado restabelecimento de uma colónia reprodutora da ave no Alentejo».

A LPN refere que, nos próximos meses, em colaboração com a Herdade da Contenda, propriedade da Câmara de Moura, continuará a monitorizar os ninhos ocupados pelo abutre-preto, «tendo permanentemente em atenção a necessária compatibilização com as restantes atividades em curso na propriedade», como a caça, a silvicultura, o ecoturismo e o usufruto pelas comunidades locais.

A nidificação da espécie "criticamente em perigo de extinção" no Alentejo foi possível graças ao resultado das medidas implementadas no âmbito do projeto e da "indispensável colaboração" da empresa municipal de Moura Herdade da Contenda e da sua "adequada gestão da área".

Segundo a LPN, o abutre-preto regressou como reprodutor a Portugal em 2010, na região do Tejo Internacional, e, atualmente, estão a nidificar apenas cerca de 12 casais no Tejo Internacional e um casal no Douro Internacional, podendo a nidificação detetada no Alentejo «constituir o estabelecimento do terceiro núcleo reprodutor da espécie no país».

No início de 2012, no âmbito do projeto LIFE «Habitat Lince Abutre», foram instalados um total de 30 ninhos artificiais para abutre-preto no Alentejo, nas regiões de Moura, Mourão e Barrancos e do Vale do Guadiana, para «melhorar as condições para o estabelecimento e reprodução» da espécie.

Além da instalação dos ninhos, foi também criada uma rede de campos de alimentação para aves necrófagas na área de implementação do projeto, dirigida ao abutre-preto, e um conjunto mais vasto de medidas de conservação do lince-ibérico e dos habitats das duas espécies, incluindo a sensibilização e envolvimento das comunidades locais, num investimento de cerca de 2.250.000 euros ao abrigo do Programa LIFE-Natureza.