Ângelo Fernandes tinha 11 anos quando um amigo da família, um “homem simpático e respeitado pela sociedade, como são quase todos os agressores”, abusou sexualmente dele. Os abusos repetiram-se durante meses, com Ângelo a achar que tinha provocado a situação.

Cresci a achar que era o culpado dos abusos. As estratégias de manipulação dos agressores fazem com que as crianças se sintam como se estivessem a provocar a situação. Passei a achar que eu, com 11 anos, tinha seduzido um homem de 35. Os meus sentimentos de culpa eram tão grandes, que eu nunca partilhei com ninguém, por medo de que os outros também achassem que a culpa era minha.”

Olhando para trás, Ângelo consegue justificar por que é que “nunca ninguém notou nada de errado”. “Era uma criança sociável. Socializava com qualquer pessoa. Se eu permitisse que isso passasse para fora, ia dar azo a que perguntassem porquê. E eu não queria dizer, porque achava que era eu o culpado”, conta, em entrevista à TVI.

A “cicatriz” que deixa de doer

Só foi capaz de procurar ajuda 20 anos depois, quando vivia no Reino Unido. Procurou uma associação que trabalhava precisamente com homens vítimas de abusos. “Só aos 30 e poucos anos, fui capaz de procurar esse apoio”, recorda.

Hoje, assegura que a questão está resolvida dentro de si e que não ficaram sequelas. “Há seis ou sete anos, quando eu recordava esta história, sentia-me sufocado. Hoje, quando falo do abuso sinto-me estabilizado. É uma mensagem que gostava de passar até para outras vítimas: é possível recuperar por completo”, garante.

Costumo comparar esta questão a uma queimadura. Quando nos queimamos, dói muito. Depois, vamos ao médico e o início do tratamento ainda é doloroso, mas, à medida que vai atuando, vai cicatrizando e deixa de doer. Hoje, sinto isso: está lá uma cicatriz, mas eu toco e já não dói.”

Ângelo faz questão de contar a própria história. O objetivo é ajudar que outros homens se identifiquem e sejam capazes de procurar ajuda. Ajudar é precisamente a missão da associação “Quebrar o Silêncio”, que ele próprio fundou para ajudar homens que, como ele, tenham sido ou sejam vítimas de abuso.

85 pedidos de ajuda em menos de um ano

Foi por isso que regressou de Manchester, onde vivia. Percebeu que a ajuda que tinha encontrado lá não existia em Portugal e voltou para fundar uma associação semelhante àquela onde tinha encontrado apoio. A “Quebrar o Silêncio” completa um ano esta sexta-feira.

A associação presta “apoio especializado, gratuito, anónimo e confidencial” a homens vítimas de violência e abuso sexual. Além disso, faz a prevenção da violência e do abuso sexual na infância, nomeadamente com o trabalho direto junto dos jovens, nas escolas.

Nos últimos 365 dias, recebeu 85 pedidos de ajuda. Só nos últimos 10 dias, foram procurados por nove homens à procura de cicatrizar a ferida.

O nosso objetivo é ajudar os homens a recuperar. Quando um homem nos chega à associação não é, por exemplo, obrigado a contar logo a sua história. A história é dele e ele partilha-a quando se sente confortável e capaz de o fazer”, explica Ângelo Fernandes.

Quando o perigo mora ao lado

Dos 76 pedidos de ajuda recebidos até ao dia 8 de janeiro, 46 são de homens sobreviventes a abusos sexuais e 16 de familiares ou amigos de vítimas. A associação recebeu ainda o pedido de ajuda de 14 mulheres, que encaminhou para entidades parceiras.

O homem mais novo que procurou ajuda tinha 22 anos e o mais velho tinha 65. Em 78% dos casos, o primeiro pedido de ajuda foi precisamente este que fizeram à associação.

Na esmagadora maioria dos casos, a vítima tinha algum tipo de relação com o agressor (em 52,2% dos casos, o agressor era membro da família e, em 39,1%, era um conhecido da vítima).

Sessenta e seis por cento dos casos que procuraram a associação no último ano dizem respeito a homens que sofreram o primeiro abuso na infância, entre os 0 e os 11 anos, e cerca de 21% dos casos são de homens abusados entre os 12 e os 18 anos. Mas, em muitos casos ainda não foi possível apurar quando ocorreu o abuso. “Não precisamos de saber pormenores para começar a ajudar a vítima”, remata o fundador a “Quebrar o Silêncio”

Apenas em quatro dos casos de vítimas que procuraram a associação foi possível apurar que os abusos aconteceram na idade adulta. “Pode ser mais fácil para um homem admitir que foi abusado na infância do que admitir que foi abusado ontem ou na semana passada, já adulto”, explica o responsável.

Os mitos

João (nome fictício) tinha 11 anos quando foi vítima de abuso sexual pela primeira vez. A agressora era uma prima, sete anos mais velha. João passava os fins de semana em casa dos tios.

Quando ficavam sozinhos, a prima de João pedia-lhe para “brincarem” a algo que era só deles e mais ninguém podia saber. João não se sentia muito confortável com as brincadeiras da prima, mas como era mais velha e era ela que tomava conta de si, aceitava. Já adulto, João recorda como a prima o masturbava e que era comum praticarem sexo oral.

João chegou a contar à mãe, que desvalorizou e lhe disse que “era normal”. Foi essa a resposta que obteve quando, já adulto, procurou ajuda profissional pela primeira vez. O psicólogo que ouviu a sua história disse-lhe que “a exploração do corpo é algo perfeitamente natural entre vizinhos, primos e até irmãos”.

Ângelo Fernandes encontra um mito associado ao abuso sexual, que pode ajudar a explicar as reações de quem ouviu a história de João, cuja história está contada no site da "Quebrar o Silêncio". “Se um rapaz é abusado sexualmente por uma mulher, não é abuso, é sorte. Ainda há muita gente a pensar assim”, adianta.

E este mito não é o único. Vários pensamentos enraizados na sociedade são autênticos travões para que as vítimas procurem ajuda: “desde logo o mito de que um homem não pode ser vítima de abuso. O homem é o agressor, nunca a vítima. Outro grande mito é o de que se a vítima não tenta fugir ou evitar o abuso, então não é abuso, mesmo que essa vítima seja apenas uma criança. Há também quem ainda ache que se o rapaz tiver uma ereção, não é abuso, porque significa que estava excitado, quando há reações físicas, que nada têm a ver com o prazer e que podem explicar essa ereção”.

Na conversa que manteve com a TVI, Ângelo deixa uma mensagem importante: quando há abuso sexual, não pode haver lugar a “mas”: “Se abrimos a porta dos ‘mas’, estamos a culpabilizar as vítimas e estamos a dizer a todas as outras vítimas que não adianta procurarem ajuda, porque lhes vão dizer que a culpa foi delas.”