Otelo Saraiva de Carvalho tinha um Plano B de reserva, na Guiné-Bissau e nos Açores, embora garanta que «não admitia falhanços» no seu plano de operações que conduziu ao 25 de Abril de 1974 e ao fim da ditadura.

A propósito dos 40 anos do 25 de Abril de 1974, num encontro promovido pela agência Lusa no Posto de Comando da Pontinha, em Lisboa, onde foi instalado o controlo das operações do Movimento das Forças Armadas (MFA), o coronel Otelo Saraiva de Carvalho, na altura major e responsável pelo plano de operações da revolução, explica qual era a ideia.

«O Vasco Lourenço preparou a tomada do quartel-general onde estava colocado [nos Açores], juntamente com o Melo Antunes», recordou Otelo à Lusa, explicando que a ideia passaria por conquistar o quartel-general e com base nessa posição de força fazer exigências ao Governo para que se demitisse, ameaçando com a independência dos Açores.

Na Guiné-Bissau, a ideia não era muito diferente. «A certa altura, recebi do ajudante de campo do general Spínola a informação de que um major de artilharia tinha vindo da Guiné e tinha ido a casa do Spínola perguntar o que havia, que não tinha havido mais comunicados nenhuns do MFA e se o general sabia de alguma coisa do movimento», contou Otelo.

Em consequência, Spínola pediu ao seu ajudante de campo para facilitar um encontro entre o major Aragão, vindo da Guiné, e Otelo Saraiva de Carvalho, que acabou por acontecer numa pastelaria perto da Academia Militar, em Lisboa, e durante o qual o capitão de Abril assegurou que «estava tudo a andar».

Caso as operações em Portugal falhassem, o MFA estava preparado para prender o comandante militar na Guiné, revelou o major Aragão a Otelo Saraiva de Carvalho nesse encontro.

«Os planos B resultaram nisso: Açores e Guiné. A malta estava preparada para tomar e prender as altas entidades de lá, anunciar ao Governo que estavam presos e [exigir] que o Governo abandonasse», declarou Otelo.

O almirante Vítor Crespo, o oficial da Marinha no comando das operações no posto da Pontinha, acrescenta que «havia um plano equivalente» ao da Guiné para Moçambique.

Otelo Saraiva de Carvalho, Garcia dos Santos, Vítor Crespo e Sanches Osório juntaram-se por estes dias. São quatro dos seis oficiais das Forças Armadas que comandaram o golpe militar de 25 de abril de 1974 a partir do quartel da Pontinha, em Lisboa. Os outros são Nuno Fisher Lopes Pires e Hugo dos Santos, que morreram em 2013 e em 2010, respetivamente.

Falam com amargura do momento atual. «Nós hoje estamos a viver uma situação que leva muitos de nós a pensar como é que vai ser o futuro. Ou seja, eu acho que os nossos atuais políticos são uns garotos, que nunca fizeram nada na vida, que não têm experiência de nada e que nos estão a levar para um buraco, que não sei como vamos sair dele», dz o general Garcia dos Santos.

O antigo capitão de Abril admitiu já ter questionado se o MFA tomou a melhor decisão ao dar cumprimento a um dos principais pontos do programa dos militares: terminada a revolução, entregar o poder à sociedade civil. «Há uns tempos pensei assim: eh pá, nós se calhar fizemos asneira. Se tivéssemos mantido por mais alguns tempos o poder na mão dos militares as coisas, se calhar, hoje, não seriam como são. Mas isso era extremamente perigoso. Porque aquilo que nós, MFA, fizemos, não teria possibilidade de êxito numa situação dessas. Porque muitos dos nossos militares, façamos-lhes essa justiça, não pensavam como nós. E, portanto, poderia vir aí mais um ¿ditadorzeco¿ que levava isto outra vez para o mesmo sistema que estava antigamente», diz.

O almirante Vítor Crespo entende, ainda assim, que o MFA e a revolução deram ao país «uma estrutura democrática que se mantém» e recusa culpar a Constituição que se forjou no pós-25 de Abril pelo atual momento: «Não se tem criado um clima de responsabilidade equivalente à estrutura democrática que foi criada, e da qual eu me orgulho muito.»