O Grupo de Ativistas em Tratamentos (GAT) considerou hoje «inaceitável e intolerável» o preço de um medicamento pedido por uma empresa farmacêutica ao Hospital São João, no Porto, para tratar quatro doentes de Hepatite C.

«O GAT cessa todos os contatos não estritamente institucionais e em reuniões multilaterais com a Gilead [farmacêutica]», referiu, em comunicado enviado à Lusa.

O Hospital São João adiantou à Lusa que o medicamento antiviral, aprovado pelo Infarmed, tem um custo de 97.620 euros por doente, ou seja, 16.270 euros por embalagem, equivalente a um mês de tratamento e, apesar de fazer a encomenda, declarou a farmacêutica fornecedora «hostil» e apresentou queixa às autoridades competentes.

«Mantém [farmacêutica] os doentes em risco de vida, como reféns das negociações com as autoridades de saúde portuguesas, e contrasta com aquilo que sabemos ser o preço real praticado na Europa, em países mais ricos e com menos dificuldades económicas que Portugal», adiantou.

Segundo o GAT, o preço no sistema público de saúde do medicamento em Espanha é de 25.500 euros, seja para o tratamento de 12 ou 24 semanas, portanto, a farmacêutica em Portugal cobra mais 72.120 euros.

O GAT afirmou que irá rever a cessação de contatos com a farmacêutica quando esta «anunciar que disponibilizará aos hospitais públicos o sofosbuvir [medicamento] pelo menos pelo preço que cobra em Espanha e ainda que reembolsará os hospitais, como é desejável».

Desta forma, o GAT apela às companhias da indústria farmacêutica para que, «de forma urgente e transparente», negociem preços que permitam assegurar, nos próximos anos, o «acesso universal» para todas as pessoas que vivem com Hepatite C, já que Portugal enfrenta «sérios constrangimentos financeiros».

A farmacêutica que comercializa o medicamento para Hepatite C Sofosbuvir disse na segunda-feira ter apresentado, em outubro, ao Ministério da Saúde uma proposta com «um preço substancialmente abaixo» do atual, mas o Infarmed considerou não ser ainda comportável.

Em comunicado, a Gilead referiu que «tem trabalhado com o Ministério da Saúde para finalizar as condições da comparticipação e permitir o acesso dos doentes portugueses ao Sofosbuvir o mais rapidamente possível».

Contactado pela agência Lusa, o Ministério da Saúde, através do Infarmed, sublinha que «até ao momento, o laboratório farmacêutico não foi ainda capaz de apresentar um preço e condições adequadas que possam ser consideradas comportáveis pelo SNS» e que o Infarmed «continua envolvido no processo de negociação, com o laboratório farmacêutico, com o objetivo de chegar a um acordo com condições que possam ser aceitáveis».

«Gostaríamos de sublinhar que os doentes que se encontrem em situações que, de acordo com os critérios clínicos aprovados, se encontrem em situação que necessite de início urgente do tratamento continuam a ter acesso através de Autorização Excepcional solicitada pelo hospital e autorizada pelo Infarmed», acrescenta a mesma resposta.

No sábado, o ministro da Saúde, Paulo Macedo, considerou «hostil» pedir 400 mil euros para tratar quatro doentes com Hepatite C.