O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), Manuel Clemente, disse esta sexta-feira, em Fátima, distrito de Santarém, que as eleições dizem respeito a todos e que votar é um dever dos cristãos.

“Às vezes a nossa tendência para nos abstermos, não só na vida política como na vida social, na vida profissional, deixarmos que sejam os outros a resolver problemas, pormo-nos de fora é muito forte, até quando há alguma desilusão, desgaste, cansaço, desconfiança”, afirmou Manuel Clemente, cardeal-patriarca de Lisboa, à margem das Jornadas Nacionais de Comunicação Social.


Manuel Clemente considerou, contudo, que os cidadãos não se podem colocar de fora dos problemas.

“Não nos podemos pôr de fora porque as coisas que dizem respeito a todos só se resolvem com todos, portanto connosco, temos que ir”, apelou o presidente da CEP, referindo que vai hoje votar antecipadamente no seu município por no dia das eleições legislativas, 04 de outubro, estar no Vaticano a participar no Sínodo dos Bispos.

Questionado sobre se a primeira semana da campanha eleitoral tem sido esclarecedora, o presidente da CEP realçou que “as campanhas têm a virtualidade e os problemas do concentrado”.

“Em 15 dias e correndo o país todo de norte a sul e com presenças também na comunicação social, os vários políticos e candidatos têm que apresentar muito depressa e dizer muito rapidamente e num ambiente que é já muito contrastado, porque tudo se passa em termos de pergunta de outros e de resposta própria a questões que precisam de mais tempo para serem assimiladas e nós também para as podermos escutar precisamos de uma outra calma”, observou.


Assinalando ser positivo que “haja estes momentos” que “têm necessariamente que existir”, Manuel Clemente considerou, no entanto, que “também requerem uma atenção que não é da parte dos cidadãos concentrável e resumida em duas semanas de campanha”.

Segundo o cardeal-patriarca, “as campanhas têm virtualidades e têm dificuldades pela sua precipitação e requerem da nossa parte uma atenção democrática que tem de ser muito mais distendida”.

À pergunta sobre se a questão da família tem destaque nos programas eleitorais, Manuel Clemente “não tem o que devia ter”, dizendo ver “nos programas partidários algumas referências à situação das famílias, ao seu aspeto económico”. Mas “o problema é muito maior do que esse”, sublinhou.

“O problema é pormos a possibilidade da construção das famílias, da manutenção das famílias na base de qualquer programa político e isso não está, é um ponto, é um elemento”, acrescentou.


Em abril, no discurso de abertura da assembleia plenária da CEP, Manuel Clemente afirmou ser “imprescindível” que os partidos e candidatos apresentem propostas consistentes para a resolução dos problemas que o país enfrenta, evitando “trocar causas por casos”.

 

Resposta aos refugiados deve ser integrada


O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) expressou esta sexta-feira satisfação pela “grande disponibilidade” das pessoas em ajudar os refugiados e defendeu uma resposta integrada a esta situação.

“Eu estou satisfeito com a grande disponibilidade com que as pessoas se manifestam em relação a esse problema, há imensas manifestações de disponibilidade, de vontade de ajudar, de participar e isso é fundamental”, afirmou Manuel Clemente, em Fátima, no distrito de Santarém.


Manuel Clemente salientou, contudo, que o país, agora, tem de ter “a resposta necessária” que deve “ser muito integrada” com o Estado português e os organismos internacionais.

“Temos que entrar em linha de conta com o facto de que não é uma presença episódica, porque as pessoas não vêm dispersas, vêm muitas vezes como famílias, trazem os filhos, trazem os parentes”, declarou, considerando que “há aqui uma dimensão de acolhimento que depois significa acompanhamento, aprendizagem da língua, integração local, viabilidade de trabalho, um tal conjunto de problemáticas que só integralmente podem ser respondidas”.


Para o presidente da CEP e cardeal-patriarca de Lisboa, “isso significa Estado português, isso significa organizações da sociedade civil, entre as quais organizações católicas, e só assim no conjunto” é possível acertar, pois “efetivamente isto não é um problema episódico ou de mais ou menos indivíduos, são agregados familiares em muitíssimos casos” que devem ser atendidos como tais.

Questionado sobre se, além do acolhimento social, Portugal está preparado para o acolhimento religioso e espiritual, pois muitos dos refugiados que chegarão ao país poderão não ser cristãos, o cardeal-patriarca de Lisboa começou por dizer que “esses sistemas religiosos são sistemas de vida em geral”.

“Tem a ver com a vida familiar, tem a ver com a organização do tempo, tem a ver com todos os aspetos que fazem uma civilização e uma cultura, são mais do que uma religião no sentido estrito”, sublinhou.

Para Manuel Clemente, trata-se de um “desafio”, mas “isso também está muito na ‘massa’ portuguesa”, pois desde o princípio o país foi “terra de toda a gente e para toda a gente”.

“Isso é, digamos, o nosso ADN e ainda vai exercitar-se mais, eu vejo isto como um desafio positivo”, acrescentou.

O país deverá acolher cerca de 4.500 refugiados, no âmbito do mecanismo de recolocação de pessoas pelo espaço comunitário.

Portugal deverá receber cerca de 70 milhões de euros, até 2020, em fundos comunitários para integrar refugiados e migrantes, segundo uma proposta da Comissão Europeia.

Segundo o contributo do executivo comunitário para a discussão da crise dos refugiados, apresentado aos chefes de Estado e do Governo dos 28 Estados-membros, Portugal deverá receber mais de 32,7 milhões de euros na rubrica denominada de "Fundo de Asilo, Migração e Integração".

Na rubrica "Fundo de Segurança Interna", relativa a fronteiras, Bruxelas irá alocar a Portugal quase 19 milhões de euros, enquanto a nível das autoridades policiais o fundo destinado aproxima-se dos 18,7 milhões de euros.