Mais de 50% das salas de creches, jardins-de-infância e escolas primárias do Porto e Bragança têm níveis de concentração de dióxido de carbono acima dos limiares legislados, aumentando a probabilidade dos bebés e crianças contraírem asma.

Durante os últimos três anos, foi realizada uma investigação científica pela Universidade do Porto em 58 salas de 25 creches, jardins-de-infância e escolas primárias da Área Metropolitana do Porto e do distrito de Bragança, demonstrando que “mais de 50% das salas destinadas a bebés e crianças estão com concentrações de dióxido de carbono (C02) acima dos limiares legislados em Portugal”, revelou hoje à Lusa Sofia Sousa.

Sofia Sousa, professora e investigadora na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), doutorada em engenharia do Ambiente, adiantou ainda que 84% das salas avaliadas registaram níveis de partículas finas (poeiras) acima da legislação recomendada pela Organização Mundial da Saúde.

As concentrações de radão (gás radioativo natural, poluente cancerígeno) encontradas estiveram também muitas vezes acima dos limiares legislados, especialmente no distrito de Bragança, revela o estudo, embora não se possa deduzir que as concentrações do radão vão provocar cancro, observou a investigadora.

Os dados recolhidos são “preocupantes, mas não alarmantes”, considera a investigadora, explicando que uma medida simples e económica, como o arejamento do ar, pode diminuir consideravelmente os níveis de concentração destes poluentes e contribuir para que diminua a probabilidade de as crianças contraírem asma.

A inalação de um ar com os elevados níveis de concentração de CO2 e partículas finas “pode aumentar a probabilidade do desenvolvimento de asma infantil”, indica a investigação.

“Quanto mais se arejar os espaços, melhor”, considera a investigadora, reconhecendo que há edifícios mais modernos em que o simples arejamento do ar se transforma numa tarefa complicada devido à sua construção.

A investigação demonstra que as fontes interiores foram as principais causas das elevadas concentrações encontradas, nomeadamente ventilação inadequada, ocupação excessiva e atividades de limpeza desadequadas.

A equipa que realizou o estudo transmitiu os resultados específicos a cada uma das instituições envolvidas, construindo em conjunto algumas ações de mitigação, bem como comunicou aos encarregados de educação das crianças envolvidas no estudo os resultados dos testes médicos efetuados.

A Lusa, a investigadora admitiu que as instituições se “mostraram preocupadas em alterar as situações”.
 

Fenprof defende plano de diagnóstico


A Fenprof considerou que a investigação “não surpreende” e defendeu um plano de diagnóstico em todos os estabelecimentos escolares do país.

Em declarações à agência Lusa, o secretário-geral da Fenprof, Mário Nogueira, disse que estes resultados “não surpreendem”, revelando que as questões ligadas ao ambiente e à sua qualidade nas salas de aulas e nas escolas “nunca foram bem tratadas pelo Governo”.

“A Fenprof defende que deve haver um plano de diagnóstico de toda a situação que existe nas escolas portuguesas e não apenas das que dependem do Governo, mas das que dependem das autarquias, das escolas particulares no continente e nas regiões autónomas”, frisou.

No entender de Mário Nogueira, o Governo e as autoridades que tutelam escolas devem fazer um levantamento da qualidade do ar e ambiente em todos os estabelecimentos escolares do país, sejam eles públicos ou privados.

“Por exemplo, chegámos ao final da legislatura e muitas escolas continuam a manter amianto na sua construção. O Governo foi aqui e acolá substituindo algumas placas em algumas escolas (sendo que nalgumas isso foi feito em período de aulas com toda a população escolar), mas não chega”, salientou.

De acordo com o sindicalista, se for feito um levantamento sério sobre estas matérias em todas as escolas do país, com certeza que os “resultados vão ser surpreendentes”.

“Não vou dizer, porque seria alarmista, que estar numa escola é estar permanentemente numa situação de risco, mas na verdade isso pode acontecer se o desleixo continuar”, frisou.

A agência Lusa contactou a Direção-Geral da Saúde sobre a situação detetada no Porto e em Bragança, que disse desconhecer o estudo e que, por esse motivo, não comenta para já os resultados daquela investigação.