Rafael, 13 anos, não tem boas notas a português, mas passa todos os intervalos a escrever. Escreve poemas, que depois canta em forma de rap. Na sala de aula é um aluno difícil, desatento, muitas vezes indisciplinado. Leva para a escola muitos dos problemas que vive todos os dias no bairro da Cruz Vermelha em Alcabideche, onde alguns rapazes pouco mais velhos já foram baleados. O mau comportamento não vem sem culpa. Rafa, como é tratado carinhosamente na escola, sente que está a falhar ao maior compromisso: o que tem com a mãe.

A mãe, Ana Paula, trabalha como empregada de limpeza. Com pouco mais de um ordenado mínimo sustenta seis filhos e não deixa faltar comida na panela, como canta Rafa... O mesmo não acontece com muitos outros. Em Alcabideche estudam alunos do 5º ao 9º ano com idades compreendidas entre os 10 e os 18. Muitos fazem a única refeição quente na escola. Nos conselhos de turma, os professores confundem-se com assistentes sociais. As suas preocupações, mais do que a nota do aluno A ou B, vão parar ao estudante que não aparece, aos pais que não conseguem estar presentes em casa, à falta de dinheiro para o básico como um livro ou um par de óculos para conseguir ler.

No bairro, Rafael tem um amigo improvável: o rapper Plutónio. Estão separados por duas gerações, mas têm muito em comum para além do gosto pela música: cresceram no mesmo sítio, estudaram na mesma escola, passam pelos mesmos problemas, enfrentam o mesmo dilema diário entre a vontade de fazer bem e a tentação de ceder a um sentimento de revolta.

Nas suas lutas pessoais, separadas por 20 anos, os dois amigos tiveram a mesma aliada: a professora de música, Teresa Godinho.

No dia 1 de maio, Rafael viveu um dos maiores momentos da sua vida. Convidado por Plutónio, estreou-se nos palcos, e logo no Coliseu dos Recreios. Teresa Godinho, estava lá, claro.

Inúmeros estudos, em Portugal e no estrangeiro, estabelecem uma relação direta entre o nível sócio-económico das famílias e a probabilidade de insucesso escolar ou abandono. Essa diferença é mais acentuada entre os rapazes do que nas raparigas, que conseguem com maior facilidade ultrapassar os condicionalismos socioeconómicos. A taxa de abandono escolar precoce tem descido ao longo dos últimos 20 anos. Em 2014, chegou aos 17,4%. Mas nos últimos três anos o ritmo dessa queda abrandou.

A reportagem chama-se "Desculpa" e "Obrigado" porque são as palavras mais repetidas nas músicas escritas por Rafael. Dirigem-se às pessoas que o fazem querer ser melhor, mesmo quando quase tudo joga contra ele.