Um estudo da Ordem dos Enfermeiros (OE) revela que faltam 1.779 enfermeiros nas 117 unidades da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI) da região sul do país, para garantir o «funcionamento com segurança dos cuidados prestados».

O estudo de caracterização das unidades da RNCCI teve como objetivo «perceber qual é a capacidade de resposta da rede e, sobretudo, os desafios que se colocam e os recursos necessários para o seu funcionamento», disse à agência Lusa o presidente da Secção Regional Sul da OE, Alexandre Tomás.

Tendo em conta a área de abrangência da região Sul, que abrange as administrações regionais de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve, «foi possível identificar a capacidade instalada desta rede, mas também a capacidade efetiva de investimento nas unidades da rede», adiantou Alexandre Tomás.

Dados do estudo realizado pela Secção Regional do Sul da OE revelam que nas 44 unidades de internamento, de um total de 117 que responderam ao estudo, trabalham 412 enfermeiros (93% generalistas e 7% especialistas), faltando 659 destes profissionais, tendo por base o documento para o cálculo da dotação segura.

Se estes dados forem extrapolados para as 117 unidades de internamento existentes entre Santarém e Faro faltam 1.779 enfermeiros, o que significa que, em média, faltam 15 enfermeiros em cada unidade.

O enfermeiro Alexandre Tomás explicou que o número de enfermeiros em falta não é igual em todas as unidades.

«Cada uma das unidades da rede, de convalescença, de média duração, de longa duração ou de paliativos tem uma necessidade própria de número de enfermeiros que decorre do tipo de utente que está nessa unidade», sustentou.

O estudo constatou ainda a carência de enfermeiros especialistas nestas unidades, «o que pode condicionar a capacidade de resposta destes profissionais».

De acordo com a OE, existem 2.749 lugares de internamento na rede na região sul, distribuídos por Unidades de Longa Duração (50,4%), Unidades de Média Duração (27,4%), Unidades de Convalescença (12,8%) e Unidades de Cuidados Paliativos (9,4%).

Sobre a taxa de ocupação nas unidades estudadas, a investigação refere que «é elevada”, sendo maior nas Unidades de Convalescença e de Longa Duração, 97,35% e de 97,52%, respetivamente.

Para Alexandre Tomás, estes dados permitem afirmar que «as unidades da rede têm uma efetiva carência de enfermeiros» e que «a rede nacional de cuidados continuados não consegue responder às necessidades das pessoas que estão internadas em unidades hospitalares e que necessitam de resposta desta rede».

Levantam ainda «duas questões paradoxais», disse, explicando: Por um lado, há «uma efetiva carência de enfermeiros» nestas unidades de acordo com a orientação da Ordem dos Enfermeiros, mas, por outro lado, uma recente portaria que regula o funcionamento dessas unidades «diz que ainda são precisos menos profissionais».

«Não conseguimos compreender como o decisor faz sair uma portaria que manifestamente não qualifica as equipas e não prevê que haja um reforço destas equipas», frisou.

As 117 Unidades de Internamento da RNCCI na região sul dão resposta a 4,4 milhões de habitantes, sendo que 851.694 habitantes têm mais de 65 Anos, que representam 19,2% da população.

População é envelhecida, dependente e carenciada 

Idosos carenciados, maioritariamente mulheres, com baixa escolaridade e elevada incapacidade e dependência são o retrato da população da RNCCI, segundo um estudo da Ordem dos Enfermeiros.

O estudo da Secção Regional Sul da Ordem dos Enfermeiros (OE) visou caracterizar as 117 unidades de internamento da rede na região sul do país, descrever a sua população e as equipas de enfermagem.

Do total das 117 unidades, 44 aceitaram participar no estudo, tendo a amostra envolvido 1.049 pessoas internadas, com uma média de idades de 74 anos.

Mais de metade (57%) das pessoas internadas na rede têm dependência total e 40% uma dependência leve, moderada ou severa, disse à agência Lusa o presidente da secção regional sul da Ordem dos Enfermeiros, Alexandre Tomás.

Estes dados demonstram que 97% da população que hoje está na rede tem um nível de dependência efetiva para as atividades diárias, adiantou o enfermeiro.

Para Alexandre Tomás, esta realidade «exige um conjunto de cuidados de saúde» e o «reforço de equipas com enfermeiros e enfermeiros especialistas para prevenir um conjunto de complicações e promover a recuperação destas pessoas».

Observou ainda que 70% das pessoas que estão internadas nestas unidades «têm risco de queda», o que obriga ao acompanhamento permanente destes doentes.

Quarenta por cento dos utentes têm mais do que uma doença. Destes, 10% têm mais de três patologias, o que significa «uma enorme necessidade em cuidados de enfermagem», sublinha o estudo.