O presidente da Cáritas Portuguesa, Eugénio Fonseca, afirmou este domingo que o desemprego de longa duração é “uma eutanásia social” imposta às pessoas, que as faz sentir “inválidas” e “sem projeto de vida”.

“Não nos podemos conformar com isso, porque há gente que hoje tem 40, 45 anos e está há três ou quatro anos sem trabalho”, com compromissos familiares a assumir e cuja esperança de encontrar um emprego é “cada vez mais ténue”, disse Eugénio Fonseca, que falava à agência Lusa a propósito da Semana Nacional da Cáritas, que começa este domingo.

Eugénio Fonseca defendeu que, antes de se trazer para a discussão pública temas como a eutanásia, deve olhar-se para estes desempregados, que “estão a ver roubado um direito inalienável, o direito ao trabalho”, e não as deixar “morrer em termos societários e por falta de recursos”

“Por amor de Deus não chamemos como prioritário para a discussão pública temas que podem ficar para outra oportunidade, porque aquilo que está a acontecer em termos do desemprego de longa duração não é mais do que uma eutanásia social que se está a impor às pessoas, que sem trabalho perdem estatuto social, o ser lugar na sociedade e consideram-se inválidas, sem projeto de vida, perdidas.”

“Tudo isto são expressões de morte para estas pessoas”, lamentou Eugénio Fonseca.

Sobre o tema da eutanásia, o presidente da Cáritas disse que não vai tomar posição, porque considera “não ser a altura própria” para fazer este debate, mas se acontecer que seja “um debate alargado, muito sério e muito isento”.

Da análise que a Cáritas fez ao ano 2015 constatou que “o problema crucial” neste momento no país é o rendimento das famílias que não permitem aceder a bens de primeira necessidade e até a encargos muitas vezes impostos pelo Estado, como ”impostos que são criados e que as pessoas não podem deixar de assumir sob pena de se tornarem mais gravosos”.

Outra “preocupação muito séria” para a Cáritas é o facto de as pessoas continuarem a contrair empréstimos.

“Este empobrecimento das famílias que resulta da austeridade criada ao longos dos últimos anos leva a que as pessoas se continuem a endividar como faziam antes da crise e por isso caíram mais rapidamente na situação de pobreza que estão a viver.”

Para Eugénio Fonseca tem que haver “uma entidade reguladora deste procedimento”, que permite aceder a créditos sem ser feita uma “avaliação cuidada” das possibilidades das pessoas.

“O orçamento [do Estado] prevê o imposto de selo para obviar esse tipo de endividamento e resfriar mais a apetência das pessoas, mas chamo a atenção que isso será pouco se não houver uma regulação junto das entidades credoras, do sistema bancário ou outras”, salientou.

Alertou ainda que a “sedução muito apelativa” feita por estas entidades leva as pessoas a assinarem compromissos sem terem a plena consciência do que isso acarreta.

Nestes casos, defendeu Eugénio Fonseca, o risco tem de ser partilhado pelas partes que acordaram o empréstimo, cabendo também ao Estado “regular, fiscalizar e penalizar sempre que houver dolo nestes mecanismos”.

“Cáritas: Coração da Igreja no Mundo” é o lema da Semana Nacional, durante a qual decorrerá o Peditório Público, entre quinta-feira e domingo.