Cerca de um terço de mais de duas mil famílias com crianças inquiridas num estudo divulgado esta quinta-feira afirmam ter alguma dificuldade em garantir alimentação suficiente, enquanto 12% estão numa situação de «insegurança alimentar», que pode implicar fome.

«Em alguns casos, não comeram por vezes o suficiente (1,1%) ou muitas vezes (1,2%)», refere o resumo do projeto de investigação «Estudo de Caracterização da Pobreza e Insegurança Alimentar Doméstica das Famílias com Crianças em Idade Escolar».

O estudo é financiado pelo Fundo Social Europeu e pelo Estado e enquadra-se na atual conjuntura de crise económica, desemprego, diminuição dos rendimento das famílias e aumento do risco de pobreza.

Devido aos constrangimentos registados, «11,6% das famílias pertencentes à amostra encontram-se numa situação de insegurança alimentar», que pode ser de três tipos: ligeira, moderada e severa. Destas, «mais de metade (64,7%) encontra-se em situação de insegurança alimentar ligeira [sem fome], mais de um quarto (26,7%) está numa situação de insegurança alimentar moderada e 8,6% está em insegurança alimentar severa», aponta um documento elaborado pela coordenadora do estudo.

Mónica Truninger explica que em ambas as situações já existe fome, mas no último caso as famílias reduziram a ingestão de alimentos das crianças, que sentiram fome, e os adultos sentem «repetidamente reduções mais extensivas».

A investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa explica que a insegurança alimentar foi mais prevalecente nas famílias com baixos rendimentos e níveis de escolaridade, com profissões pouco qualificadas ou em situação de desemprego.

A generalidade das famílias afirmaram que, nos últimos dois anos, as suas despesas com a alimentação aumentaram.

Para as famílias «em situação de insegurança alimentar» foi necessário fazer alterações na alimentação, mudanças que incidiram, principalmente, «numa gestão mais rigorosa do orçamento familiar».

Nas outras famílias, as alterações passaram pela adoção de uma alimentação considerada mais saudável, preocupação que se torna menos frequente à medida que as dificuldades aumentam.

As famílias em «insegurança alimentar ligeira» aumentaram o consumo de legumes e fruta e reduziram nos enlatados, nas conservas e nos congelados, e também no consumo de carne e peixe e nos produtos biológicos certificados.

Ao contrário, para os agregados em «insegurança alimentar moderada ou severa» foi necessário consumir mais enlatados e congelados e menos legumes, frutas, frescos, carne e peixe.

Para enfrentar as dificuldades económicas, a estratégia comum a muitas famílias passa por «transmitir às crianças a importância de não desperdiçar comida», enquanto a maior diferença se verifica na opção por «comprar alimentos mais baratos».

As famílias apontaram ainda estratégias para organizar melhor os alimentos no frigorífico para evitar que se estraguem, cozinhar e preparar refeições de uma forma diferente para evitar o desperdício e cozinhar de forma a não gastar tanta energia.

A maioria dos agregados em «insegurança alimentar» afirma que o Estado é a entidade com maior responsabilidade no apoio alimentar e tende a recorrer mais aos familiares, amigos ou vizinhos, à produção agrícola própria, familiar ou comunitária, às instituições de apoio social e à oferta de cabazes.

O acesso a alimentos através das cantinas sociais revelou uma fraca adesão pelas famílias com crianças.

O inquérito foi aplicado telefonicamente a uma amostra de 2.007 representantes de famílias a residir em Portugal continental e com pelo menos uma criança dependente em idade escolar, a frequentar um nível de ensino entre o pré-escolar e o 3º ciclo do ensino básico.