A circulação automóvel vai ser cortada na EN109, em Mira, devido aos fumos tóxicos e ao perigo de explosão na zona industrial, onde persiste um incêndio alimentado por resíduos industriais, anunciou a Proteção Civil.

O corte de circulação vai durar por tempo indeterminado, até à conclusão das operações de rescaldo. O Polo I da zona industrial "será evacuado", disse à agência Lusa o presidente da Câmara de Mira, Raul Almeida.

Já a GNR comunicou, através do Facebook, que "por motivos de incêndio, a A17 está cortada em ambos os sentidos entre os nós de Mira Sul e Santo André - Vagos".

A decisão de cortar o trânsito na movimentada EN109 foi tomada após uma vistoria à zona industrial feita por uma equipa especializada dos Bombeiros Sapadores de Coimbra.

O objetivo inicial era avaliar a toxicidade dos fumos do incêndio na zona industrial, que está a ser alimentado por matéria-prima altamente inflamável (plásticos), "cascalha" (casca de pinheiros) e material orgânico de uma das sete fábricas devastadas pelo incêndio de domingo.

Porém, os sapadores encontraram entre os escombros equipamento potencialmente explosivo e avançaram, por cautela, com o corte de circulação.

A decisão foi tomada durante uma reunião no Posto Móvel da Proteção Civil Municipal de Mira, instalado provisoriamente nas imediações da zona industrial, em que participaram técnicos do vizinho concelho de Vagos, uma vez que o corte ocorrerá na divisão entre os distritos de Aveiro e Coimbra.

Estradas encerradas em Braga

Duas estradas encontram-se encerradas ao trânsito no distrito de Braga, para conclusão de trabalhos de limpeza devido aos incêndios que atingiram o norte do país, disse à Lusa fonte do comando-geral da GNR.

Segundo o centro de comando e controlo operacional da GNR, em informação prestada cerca das 18:15, estão encerradas apenas duas vias no distrito de Braga, a Estrada Nacional (EN) 309, na freguesia de Espinho, e a Estrada Municipal 585, na freguesia de Longos, em Guimarães.

A circulação nas duas estradas, encerradas devido aos incêndios florestais, será reposta após a conclusão dos "trabalhos de limpeza" em curso, mas a mesma fonte não adiantou uma previsão para a sua reabertura.

Situação crítica

No domingo, a situação mais crítica aconteceu no Polo I da Zona Industrial de Mira, que continua a arder, apesar do esforço dos bombeiros e da chuva que caiu durante a noite.

Na empresa TECPLASNOVA foram consumidos materiais altamente combustíveis e decorrem ainda trabalhos de arrefecimento e proteção ao depósito de combustíveis.

Totalmente consumidas pelo fogo foram as empresas Móveis Cruzeiro, DOM, POFIC e Maranhão. Outras empresas na Zona foram fortemente afetadas, como é o caso da SIRO, um dos maiores empregadores do concelho.

Raul Almeida anunciou que "a curto prazo" vai reunir com os empresários para tentar arranjar soluções para manter as empresas afetadas em funcionamento. No total, estão em causa quase 200 postos de trabalho.

A autarquia criou entretanto um Gabinete de Apoio à População que funcionará até ao fim do mês junto dos Serviços de Ação Social no edifício Mira Center (antiga Incubadora de Empresas). O objetivo é fazer o balanço dos estragos e encaminhar os lesados dos incêndios para as autoridades competentes.

Mira denuncia falha no SIRESP

O combate ao incêndio que afetou 70% do território de Mira foi prejudicado por falhas no Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP), denunciaram as autoridades deste concelho.

Segundo relato feito à agência Lusa por Nuno Pimenta, comandante dos Bombeiros de Mira, o SIRESP só funcionou para as comunicações internas, o que contribuiu para o isolamento do concelho logo nas primeiras horas do combate ao fogo, que teve dezenas de frentes.

Ainda hoje não é possível usar o SIRESP para comunicar para fora do concelho", explicou o comandante, na presença do presidente da Câmara de Mira, Raul Almeida, e do responsável pelo quartel local da GNR, sargento Luís Santos, que relataram situações semelhantes.

Segundo o autarca, esta limitação do SIRESP contribuiu para o isolamento de Mira durante a fase aguda dos incêndios, que tiveram dezenas de frentes num território de 120 quilómetros quadrados densamente florestado.

Com as redes de telemóveis em falha desde as primeiras horas, o SIRESP limitado e os principais acessos cortados (EN109 e A17), Mira esteve "entregue a si mesma" durante a noite de domingo para segunda-feira, refere Raul Almeida.

O combate aos incêndios foi feito pelos 32 elementos voluntários dos Bombeiros de Mira (apoiados por dez veículos), pelos funcionários da autarquia e pela população em geral, que defenderam as habitações com mangueiras, enxadas, tratores e outro equipamento agrícola.

Sentimo-nos completamente abandonados ao longo do combate aos fogos", resume Raul Almeida, que conseguiu falar com o secretário de Estado da Administração Interna, a quem pediu "reforço de meios", que não apareceram. Só a meio da manhã de segunda-feira surgiram reforços no âmbito do Plano de Emergência Distrital, que ajudaram nas operações de rescaldo.

O autarca louva o papel das populações no combate aos incêndios. "Foram verdadeiros heróis", elogia.

Numa primeira estimativa, a Câmara de Mira avança que o incêndio "consumiu uma vasta área do concelho, percorreu todo o território municipal (cerca de 70%) e afetou o perímetro florestal, zonas urbanas e industriais".

Nas áreas urbanas "há a registar a perda de imenso património, nomeadamente casas devolutas e também de primeira habitação, existindo 12 famílias desalojadas que se encontram a ser apoiadas pelos serviços sociais locais e distritais".

Nas áreas florestais, as mais afetadas, "continuam a ocorrer pequenos reacendimentos enquanto se procede à consolidação do rescaldo pelos bombeiros, Instituto de Conservação da Natureza e Florestas e Proteção Civil Municipal, com recurso a máquinas rasto".