A escritora portuguesa Hélia Correia é a vencedora do Prémio Camões 2015, conforme foi anunciado esta quarta-feira no Rio de Janeiro, Brasil.

Hélia Correia, nascida em Lisboa em 1949, autora de romance, novela e conto, receberá um prémio monetário de 100.000 euros.

A escolha de Hélia Correia para a 27.ª edição do Prémio Camões foi feita por unanimidade esta quarta, numa reunião do júri, que contou com Rita Marnoto, professora na Universidade de Coimbra, Pedro Mexia, crítico literário e escritor, Inocência Mata, professora nas universidades de Lisboa e de Macau, e pelos escritores Affonso Romano de Sant’Anna, António Carlos Secchin e Mia Couto.

A escritora disse que recebeu a notícia "com muita surpresa": "Há grandes escritores de língua portuguesa com uma obra de muito maior impacto e fecundidade do que a minha".

"Não sinto que mereço. Nunca me vejo a fazer parte destas pessoas com probabilidade de obter estas distinções. Sinto-me muito fora das probabilidades de reconhecimento literário", disse à Lusa Hélia Correia. 

E explicou: "Não sinto que mereça, porque sou muito preguiçosa e descuidada na minha relação com a projeção literária, vivo num mundo muito separado do mundo social que possa estar ligado à literatura. E de vez em quando, creio eu, há uns júris assim, que são mais movidos, creio eu, pelo afeto e pela generosidade".

"É uma espécie de compensar o defeito, em vez de compensar a virtude. Não sou um escritor esforçado e responsável perante as exigências editoriais. Tenho um traçado de vida muito selvagem e muito anti-social que não espera cruzar-se com estas benesses tão importantes e tão relevantes, ligadas a um nome como o de Camões, que merece toda a nossa veneração", declarou.


Licenciada em Filologia Românica, Hélia Correia estudou teatro também, mas seguiu a via do ensino e foi professora de Português do Secundário. "Camões é um nome muito importante na minha vida. É a referência maior da língua portuguesa", frisou a escritora.
 
Hélia Correia escreveu ao longo dos anos contos, novelas ou romances e poesia. Estreou-se na poesia com "O Separar das Águas", em 1981. Seguiu-se  "O Número dos Vivos", em 1982. 

 Editou poesia nos anos 80, mas foi como ficcionista "que se revelou como um dos nomes mais importantes e originais da sua geração", afirmou esta quarta-feira a secretaria de Estado da Cultura em declarações à Lusa. "Lillias Fraser", um romance histórico passado entre Portugal e Escócia, publicado em 2001, foi o que lhe valeu mais prémios literários: o Prémio de Ficção do Pen Club e Prémio D. Dinis. Antes desse, a autora tinha visto "A casa eterna" ser distinguido com o Prémio Máxima de Literatura, em 2000.

Este ano, a obra "Vinte Degraus e Outros Contos" valeu-lhe o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, que lhe foi entregue na passada segunda-feira.

Em 2013, quando recebeu o Prémio Correntes d’Escritas Casino da Póvoa, pelo livro de poesia "A Terceira Miséria", Hélia Correia afirmava que não gosta muito de prémios e distinções. Nesse ano recebeu ainda o Prémio PEN Clube Português de Poesia e o Prémio Vergílio Ferreira 2013, pela Universidade de Évora.

"Bastardia", "O número dos vivos", "Soma", "A chegada de Twainy", "A ilha encantada" (adaptação para os mais novos da peça "A tempestade", de Shakespeare) e "Adoecer" são outros títulos publicados pela autora.

A novela "Montedemo" foi  encenada pelo grupo O Bando. A paixão pela Grécia clássica é visivel, e escreveu "Perdição", em 1993, levada à cena pela Comuna.

Hélia Correia receberá o prémio em data a anunciar.


Torga foi o primeiro escritor a ser distinguido


O primeiro distinguido, em 1989, foi o escritor português Miguel Torga. Em 2014, o Prémio Camões foi atribuído ao historiador e ensaísta brasileiro Alberto da Costa e Silva.

O anterior autor português a receber o Prémio Camões foi Manuel António Pina, em 2011.

O Prémio Camões foi instituído por Portugal e pelo Brasil em 1989 como forma de reconhecer autores "cuja obra contribua para a projeção e reconhecimento da literatura de língua portuguesa em todo o mundo", sustenta a organização.

A história do galardão conta apenas com uma recusa, a do angolano Luandino Vieira, em 2006.
 

"É um nome distinto dos nossos tempos"

A escritora portuguesa Hélia Correia "tem um percurso que já de há um tempo para cá construiu a sua solidez. É um nome distinto dos nossos tempos", afirmou à agência Lusa a presidente do júri, Rita Marnoto.


"É uma escritora que tem uma vertente universal, pela forma como explora a natureza humana nos seus vários aspectos, pela atenção que dá ao mundo real, pela atração telúrica entre crenças, evolução do tempo", sublinhou Rita Marnoto à Lusa, a partir do Rio de Janeiro.

Para o júri, Hélia Correia, seja no romance, no conto ou na poesia, explora a natureza humana "a partir das suas raízes na antiguidade clássica, projetando-a nos nossos dias, através de cruzamentos que se estendem a várias vias da literatura contemporânea".

Na escolha de Hélia Correia pesou ainda "a diversidade de géneros cultivados entre a poesia, a narrativa e o teatro, a diversidade de estilos que usa, mostrando e pondo em evidência as potencialidades da língua portuguesa".


Segundo a ensaísta Rita Marnoto, "o nome de Hélia Correia está infiltrado, está embebido na literatura em língua portuguesa nos nossos dias".
 

Lista dos distinguidos com o Prémio Camões:


1989 – Miguel Torga, Portugal

1990 – João Cabral de Melo Neto, Brasil

1991 – José Craveirinha, Moçambique

1992 – Vergílio Ferreira, Portugal

1993 – Rachel Queiroz, Brasil

1994 – Jorge Amado, Brasil

1995 – José Saramago, Portugal

1996 – Eduardo Lourenço, Portugal

1997 – Pepetela, Angola

1998 – António Cândido de Mello e Sousa, Brasil

1999 – Sophia de Mello Breyner Andresen, Portugal

2000 – Autran Dourado, Brasil

2001 – Eugénio de Andrade, Portugal

2002 - Maria Velho da Costa, Portugal

2003 – Rubem Fonseca, Brasil

2004 – Agustina Bessa-Luís, Portugal

2005 – Lygia Fagundes Telles, Brasil

2006 – José Luandino Vieira, Portugal/Angola

2007 – António Lobo Antunes, Portugal

2008 – João Ubaldo Ribeiro, Brasil

2009 – Arménio Vieira, Cabo Verde

2010 – Ferreira Gullar, Brasil

2011 – Manuel António Pina, Portugal

2012 – Dalton Trevisan, Brasil

2013 - Mia Couto, Moçambique

2014 - Alberto da Costa e Silva, Brasil

2015 - Hélia Correia, Portugal