O presidente da Associação dos Produtores de Leite de Portugal (APROLEP) defendeu no Porto que sejam tomadas medidas para evitar situações idênticas à que ocorreu na Galiza, ou poderá entrar-se no “olho por olho, dente por dente”.

Carlos Neves referia-se ao caso de um camião cisterna português que transportava leite e que foi bloqueado na segunda-feira, na Galiza, por produtores locais, que também derramaram o produto.

É necessário perguntar aos governos de Portugal e de Espanha, se vão defender os produtores e vão colocar ordem nisto ou se vão continuar ausentes e deixar que entremos numa escalada de olho por olho, dente por dente, ou de fazer justiça pelos próprios meios”, disse.

Para o dirigente da APROLEP, o que se passou na Galiza foi “uma ação de desespero dos produtores espanhóis, mas esse desespero é o mesmo que os produtores portugueses estão a sentir”.

Carlos Neves falava à margem de uma ação de "marketing direto", de contacto com os consumidores, para promover o leite, os produtos lácteos e todos os produtos agrícolas portugueses, realizada junto a um supermercado, no Porto.

Considerou ainda que a retaliação “não é solução”, mas admite que pode acontecer, “basta que um grupo se junte e organize algo idêntico”.

Penso que os espanhóis estão a atirar para o alvo errado, estão atirar para o que é mais fácil, que é Portugal. Os próprios colegas espanhóis dizem-me que a importação de França é muito superior à importação de Portugal”, sublinhou.

Carlos Neves salientou, a este propósito, que Portugal tem “um défice de 165 milhões de euros em relação a Espanha, ou seja, vão meia dúzia de camiões para Espanha e vêm dezenas, centenas de camiões com iogurtes, com leite já embalado, para Portugal”.

Presente da mesma iniciativa, o presidente da Associação de Produtores de Leite de Vila do Conde, Carlos Moreira, considerou que o que se passou na Galiza foi “má-fé” dos produtores locais, “porque estamos num mercado aberto”.

Da mesma forma que eles têm o direito de trazer leite de Espanha ou de França para Portugal, nós também temos que levar o nosso leite para Espanha, até porque temos lá uma empresa que pertence à Lactogal”, sublinhou.

Carlos Moreira entende por isso que “não foi uma boa atitude” e que os produtores de leite espanhol “devem contestar junto do seu Governo a diferença do preço entre a produção e o consumidor final, que é um dispare. Nós também o contestamos”.

Há uma margem muito grande de lucro que fica entre a indústria e a distribuição”, frisou.

Também o diretor-geral da Associação Nacional dos Industriais de Laticínios (ANIL) criticou hoje a “guerrilha comercial” de Espanha ao leite português, sublinhando que o incidente registado na segunda-feira na Galiza poderá conduzir a “retaliações” dos produtores lusos.

A Organização de Produtores de Leite (OPL) de Espanha admitiu hoje a possibilidade de ocorrerem novos bloqueios à entrada de leite português no país mas demarcou-se do incidente com camião cisterna, na Galiza.

Contactada pela Lusa, fonte do gabinete do ministro da Agricultura referiu que “está a acompanhar o processo de identificação dos intervenientes e das circunstâncias em que ocorreu a situação”.

Do resultado dessa diligência decorrerá, eventualmente, uma comunicação ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, no sentido de contactar as autoridades espanholas, caso se constate que houve qualquer procedimento incorreto da parte destas”, acrescentou.

Este protesto prende-se com o alegado incumprimento de normais legais na exportação de leite de Portugal para Espanha, nomeadamente no que diz respeito ao atestado de qualidade.