Na área da saúde em Portugal “falta quase tudo” para diagnosticar e tratar os problemas dos refugiados, alerta uma investigadora, que defende a criação de mediadores interculturais que possam fazer a ponte entre médico, paciente e instituições.

A constatação é feita por Cristina Santinho, bolseira da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e investigadora no Centro em Rede de Investigação em Antropologia (CRIA) - Instituto Universitário de Lisboa, que quinta-feira vai estar no Centro de Estudos Sociais (CES), em Coimbra, para falar sobre “O sofrimento dos refugiados em Portugal: Diagnóstico médico e erro de análise”.

Em declarações à agência Lusa, a investigadora explicou que o seu trabalho junto dos refugiados começou em 2007, para o doutoramento, e teve uma razão concreta: “Observar a saúde é uma forma de observar os direitos humanos em todas as áreas. Quando o acesso à saúde falha, o resto também está a falhar”.

E a verdade é que, na saúde, “falta quase tudo”, havendo falta de formação junto dos profissionais de saúde, nomeadamente os médicos, para a diversidade social e cultural, bem como outros aspetos relacionados com a saúde dos refugiados.

“Muitos refugiados quando chegam à consulta, de psicologia, psiquiatria, não têm como manifestar os seus próprios sentimentos, o seu mal-estar porque falha uma questão básica, que é o entendimento mútuo da língua”, apontou Cristina Santinho.

Como não existem tradutores e/ou mediadores culturais – “porque não basta traduzir a língua, é preciso entender o significado simbólico do que está a ser traduzido” – a investigadora constatou que “tudo o resto falha. Falha o diagnóstico, falha a relação entre médico e paciente, falha tudo”.

“Lembro-me de uma médica que se recusava literalmente a atender refugiados e isto, para além de ser eticamente reprovável, chama a atenção para o sentimento de impotência e de falta de êxito dos médicos quando têm à sua frente uma pessoa que não conseguem compreender, com quem não conseguem falar”, disse Cristina Santinho.

Por outro lado, verificou que alguns médicos se queixam daquilo a que chamam de “consumismo de consultas”, referindo-se aos refugiados que vão uma e outra vez às consultas, seja nos centros de saúde ou nos hospitais.

“Estas idas sistemática também dão conta de uma desestruturação social, de uma falta de atenção, mas também de frustração relativamente a um resultado esperado e nunca conseguido”, apontou a investigadora.

As consequências “são terríveis” porque os refugiados têm um sentimento permanente de que a sua dignidade não está salvaguardada.

Outras vezes, a consequência é o desaparecimento e a investigadora refere o caso de um militar bósnio, “profundamente traumatizado”, um dos muitos que acompanhou às consultas de psiquiatria.

“Tinha sido alvo de torturas e por não encontrar nenhum tipo de apaziguamento nas consultas, não encontrar nenhum tipo de soluções para a sua vida quotidiana, acabou por desaparecer e deixou de ir à consulta”, apontou, acrescentando que há também casos de suicídios.

Para a investigadora, Portugal, apesar de receber poucos refugiados, ainda não conseguiu desenvolver de forma estruturada uma boa política de acolhimento e integração destas pessoas, falhando, não só na saúde, mas também no acesso ao emprego ou na aprendizagem do português.

Cristina Santinho lembrou que há outra forma de prever o sofrimento e a cura para além das ciências biomédicas e sugeriu que os médicos tenham formação em antropologia e antropologia clínica, de modo a terem outra dimensão social e cultural do sofrimento e das doenças.

Por outro lado, defendeu, é “fundamental” a criação da figura do mediador intercultural, que possa fazer a ponte entre os refugiados, os profissionais de saúde, os cidadãos nacionais, e as instituições, nomeadamente a Segurança Social.