A fonte do surto da bactéria 'legionella' no hospital São Francisco Xavier, em Lisboa, foi pelo menos uma das torres de arrefecimento da unidade hospitalar, esclareceu esta quinta-feira a diretora-geral da Saúde.

Em declarações à agência Lusa, Graça Freitas explicou que o Instituto Nacional de Saúde (INSA) conseguiu apurar que as bactérias nas secreções dos doentes são da mesma estirpe que as encontradas na água de pelo menos uma das torres de arrefecimento.

Há uma concordância entre estirpes das 'legionellas' presentes na água que estão numa das torres e as estirpes das secreções dos doentes”, indicou, acrescentando contudo que o INSA continua ainda a fazer mais análises.

“Podemos com um elevadíssimo grau de probabilidade dizer que foi a água de pelo menos uma das torres que terá provocado o surto, uma vez que a bactéria que estava na água é geneticamente indistinguível à que estava presente nas secreções dos doentes”, indicou.

Na quarta-feira, a diretora-geral da Saúde tinha afirmado em conferência de imprensa que a fonte da infeção que provocou o surto de doença dos legionários no São Francisco Xavier estava no perímetro do hospital, mas sem especificar se se encontrava numa torre de arrefecimento.

Segundo Graça Freitas, pelas 18:00 desta quinta-feira ainda não tinha havido novos casos diagnosticados, embora a responsável não descarte o surgimento de mais casos isolados decorrentes do surto.

Por vezes existe algum atraso entre o início de sintomas e a data de diagnóstico. O caso que foi diagnosticado ontem, dia 15, já tinha sintomas no dia 13”, exemplificou.

Até ao momento há 54 casos confirmados de doença dos legionários, sendo que cinco dos doentes já morreram.

Há quatro pessoas cuja história clínica não é completamente clara não se tendo ainda a certeza se são casos de infeção por legionella quer pertencem ou não a este surto.

Graça Freitas explicou que são doentes que estiveram as imediações do hospital e como tal ainda não se podem descartar por completo deste surto, apesar de as autoridades indicarem que nos dias iniciais não havia condições favoráveis à propagação atmosférica da bactéria.

É muito pouco provável que à volta do hospital tenham ocorrido casos. Mas deixamos estes doentes como possíveis até termos dados laboratoriais”, indicou.

Questionada pela Lusa se as autoridades ponderaram nalgum momento o encerramento do São Francisco Xavier, Graça Freitas disse que tal não foi equacionado porque se enviaram de imediato equipas e se “encerraram as torres”, tendo sido feitos os tratamentos considerados adequados.

“Interrompendo a transmissão possível, encerrando a fonte, o risco deixa de estar presente e não havia motivo, depois da intervenção, para encerrar o hospital”, afirmou.

 

"É necessário perceber o que falhou"

A diretora-geral da Saúde lembrou que as torres de arrefecimento do hospital São Francisco Xavier, em Lisboa, tinham uma empresa responsável pela manutenção, vigilância e controlo, considerando que é necessário “perceber o que se passou”.

Estas torres de arrefecimento têm uma manutenção, uma vigilância e um controlo feitas por uma empresa e o hospital tinha com essa empresa um contrato válido e confiou que o trabalho teria correspondido a um processo de controlo e vigilância que não conduzisse a um problema destes”, afirmou.

“Alguma coisa aconteceu neste processo que levou a uma proliferação anormalmente elevada da bactéria [legionella]”, acrescentou, indicando que houve “algum tipo de falha em procedimentos ou falha técnica”.

Graça Freitas ressalvou, no entanto, que “ao nível de quem é responsável pelas torres de arrefecimento terão outras linhas de investigação que perceber o que se passou”, fora do âmbito da atuação da DGS ou da saúde pública.

Aconteceu aqui uma falha na vigilância, monitorização e controlo e havendo uma empresa responsável terá de ser investigada noutra sede que não a da saúde pública”, insistiu.

A diretora-geral recorda que a bactéria é muito resistente e “traiçoeira”, tendo de ser “bem vigiada e controlada”.

“Há aqui uma avaliação de risco que quem toma conta desses sistemas tem de fazer. Os gestores dos sistemas, das torres e das canalizações, neste caso uma empresa que tinha contrato válido, tem responsabilidade de fazer avaliação do risco”, declarou Graça Freitas.

A ‘legionella’ é responsável pela doença dos legionários, uma forma de pneumonia grave que se inicia habitualmente com tosse seca, febre, arrepios, dor de cabeça, dores musculares e dificuldade respiratória, podendo também surgir dor abdominal e diarreia. A incubação da doença tem um período de cinco a seis dias depois da infeção, podendo ir até 10 dias.

A infeção pode ser contraída por via aérea (respiratória), através da inalação de gotículas de água ou por aspiração de água contaminada. Apesar de grave, a infeção tem tratamento efetivo.