O Ministério Público pediu esta quinta-feira a pena máxima para Pedro Dias, pelos crimes cometidos em Aguiar da Beira, considerando incoerente e inconsistente a versão que apresentou em tribunal

Durante as alegações finais, a procuradora disse que a versão contada pelo arguido "não encontra apoio" na prova produzida em audiência de julgamento e que o tribunal da Guarda terá de aplicar a pena máxima.

Pedro Dias está acusado de três crimes de homicídio qualificado sob a forma consumada, três crimes de homicídio qualificado sob a forma tentada, três crimes de sequestro, crimes de roubo de automóveis, de armas da GNR e de quantias em dinheiro, bem como de detenção, uso e porte de armas proibidas.

Em tribunal, o suspeito quebrou hoje o silêncio, assumindo que matou o militar da GNR, mas garantindo que agiu em legítima defesa. Assumiu também ter disparado sobre um segundo militar da GNR, António Ferreira, que ficou ferido, mas rejeitou responsabilidades nas mortes de dois civis.

Desde o início do julgamento, em novembro do ano passado, que os advogados de defesa tinham dito que o arguido falaria sobre o que se passou na madrugada de 11 de outubro de 2016. Tal só aconteceu hoje, depois de toda a prova produzida.

Com vários familiares das vítimas a assistirem à sessão de julgamento, o presidente do coletivo de juízes avisou que não seriam admitidas perturbações, sob pena de terem de abandonar a sala.

Pedro Dias – que disse ser agricultor, criador de gado e estudante de aeronáutica - começou por pedir antecipadamente desculpa caso se perdesse no discurso, porque passa 22 horas por dia fechado. No entanto, afirmou que aquele foi “o dia mais negro” da história da sua vida, que “não está esquecido”.

O arguido começou por explicar que, naquela noite, parou a carrinha que conduzia junto ao hotel em construção nas Caldas da Cavaca porque estava cansado e com sono e, algumas horas depois, foi acordado por uma patrulha da GNR, constituída por António Ferreira (que sobreviveu) e Carlos Caetano (que morreu). Os militares acharam suspeito Pedro Dias estar naquele sítio ermo.

Depois de o terem identificado, de insistentemente lhe perguntarem por que se encontrava naquele local e de terem feito alguns telefonemas para o posto, Carlos Caetano dirigiu-se ao homem com umas algemas, contou.

Segundo Pedro Dias, primeiro Carlos Caetano acertou-lhe com as algemas na mão direita e depois disse-lhe: “És um pilha-galinhas, afinal estás aqui para roubar.”

O agricultor contou que, depois de ter levado vários pontapés, murros e joelhadas, puxou da arma que tinha carregada dentro da carrinha (devido a problemas passados com cães selvagens), virou-se e disparou contra Carlos Caetano.

“A confusão era muita na minha cabeça, não pensei ter acertado onde acertei. O objetivo não era matar, era assustar. Eu queria era que parassem as agressões”, justificou.

Após dar ordens a António Ferreira para conduzir a viatura da GNR, andaram na estrada, durante muito tempo, sem destino, até que decidiu voltar ao terreno do hotel, onde tinha ficado o corpo do militar Caetano.

Pedro Dias contou que disse a António Ferreira para meter o colega na bagageira da viatura e voltaram a ir para a estrada, com a ideia de ir buscar uma mota que, uns dias antes, o tinha deixado apeado porque “encharcou com gasolina”.

“Lembrei-me de apanhar essa mota e dar a carrinha como roubada”, admitiu, acrescentando que se apercebeu, no entanto, de que não seria fácil encontrá-la.

Enquanto circulavam, António Ferreira tentava convencê-lo de que o poderia safar, pedindo informações ao posto da GNR sobre matrículas de outras viaturas para desviar as atenções da sua e até que se arranjava “um criminoso” e que ele poderia ir à sua vida, referiu o arguido.

A determinada altura, quando circulavam na EN229, entre Aguiar da Beira e o Sátão, pediu para voltar atrás, porque achou que “estava a perder tempo e queria era ir buscar a carrinha” para contactar os advogados.

De acordo com Pedro Dias, foi nessa altura que o carro onde seguiam os dois civis, Luís e Liliane Pinto, parou na berma da estrada e o homem se dirigiu à viatura da GNR, abordando-a do lado em que se encontrava.

Quando se virou para António Ferreira para o alertar – dizendo-lhe “vê lá o que vais fazer” - já o viu fora da viatura, com a arma na mão, dando depois um tiro que não acertou em ninguém, contou.

Para conseguir sair do carro, Pedro Dias empurrou Luís Pinto para cima do militar, ouviu um disparo e, quando ia a fugir para o mato ouviu mais “dois ou três disparos”, acrescentou.

O arguido disse que, posteriormente, conseguiu surpreender António Ferreira, algemou-o ao puxador da porta do carro da GNR e, tomando o lugar do condutor, levou-o para a zona do mato onde suponha estar a sua mota.

Na versão do arguido, terá depois algemado António Ferreira a uma árvore e, quando tentava com uma lanterna ver onde estaria a sua moto, o militar atirou-se para cima ele, o que levou a que tivesse disparado.

“Apercebi-me que lhe tinha acertado na face. Pensei dar um tiro na minha cabeça”, afirmou.