Pilotos aviadores vão enviar ao Chefe do Estado Maior da Força Aérea (CEMFA), até ao início de novembro, um documento com os principais problemas laborais, procurando contrariar a saída de operacionais para as companhias comerciais.

Os pilotos aviadores reunidos na Associação de Oficiais das Forças Armadas (AOFA) criaram um colégio de pilotos aviadores, que irá elaborar «um documento com preocupações que têm sido sentidas pelos pilotos, sobretudo os operacionais», disse à Lusa o capitão João Teixeira, presidente desta organização.

O colégio reúne todos os pilotos que estão inscritos na AOFA, ou seja, cerca de 150 no total, dos quais 98 no ativo e que aderiram, em abril, em massa a esta organização em protesto contra as condições remuneratórias, de trabalho e de segurança. Estes cerca de cem representam aproximadamente metade de todos os pilotos da Força Aérea no ativo.

«Pretendemos dar a conhecer a quem de direito, neste caso, ao Chefe do Estado Maior da Força Aérea, quais são os nossos problemas reais, por aquilo que passamos e quais são as dificuldades com que nos deparamos. Depois, vamos esperar que nos digam de que forma podemos colaborar», revelou o responsável, citado pela Lusa.

Os pilotos aviadores excluem, para já, um pedido de reunião com o ministro da Defesa, José Pedro Aguiar-Branco.

«Não é o nosso plano neste momento. À partida, as respostas que virão do CEMFA já deverão dar-nos algumas soluções», disse o capitão, que indicou que o documento deverá estar concluído até ao início do próximo mês.

Um dos objetivos é contrariar a saída de pilotos para a aviação civil. Sem apresentarem números concretos, os representantes dos pilotos disseram que todos os anos saem vários homens.

Marco Carvalho, outro elemento do colégio de pilotos aviadores, avisou que «a curto-prazo, se não houver alguma mudança a nível da Força Aérea e se calhar a nível do ministério da Defesa, provavelmente a saída dos pilotos continuará a ser uma realidade», com custos morais e financeiros para a Força Aérea.

«Nós estamos aqui para contrariar isso. Há uma ou duas novas gerações que estão a surgir agora e que querem fazer carreira na Força Aérea Portuguesa e querem ser digníssimos pilotos aviadores no ativo e não sair para as companhias aéreas», acrescentou.

Marco Carvalho salientou que, apesar de a atividade aérea ter sido reduzida, «a missão, com muito gosto, continua a ser cumprida» e «esse empenho cai sobre um grupo de pilotos, que trabalha ativamente todos os dias, quer em voo, quer no planeamento de missões, quer destacados, quer nas unidades aéreas». «O trabalho é imenso e algumas coisas têm de ser revistas», defendeu.

Também o presidente da AOFA, Manuel Cracel, sublinhou que as saídas dos pilotos militares «têm vindo a afetar gravemente a atividade aérea, nomeadamente nas regiões autónomas, com a falta de comandantes, afetando profundamente a busca de salvamento e evacuação sanitária».

O responsável da AOFA afirmou existir, nas Forças Armadas, uma «degradação profunda das condições», que afeta todos os ramos.

«Nada tem ficado incólume», desde remunerações, o congelamento e bloqueio das carreiras, alterações ao subsídio de deslocação, «que deixa os militares aprisionados nos quartéis», assistência na doença, assistência complementar ou «discriminação negativa, nomeadamente no cálculo da reforma», causando uma «desmotivação completa» e uma «instabilidade permanente, o que gera insegurança, e a falta de confiança destes cidadãos militares em relação ao poder e àqueles que gerem os destinos do país», lamentou Manuel Cracel.