Está identificado o paciente número um do surto de legionella que está a assolar o país. Embora ainda não tenha a certeza absoluta, a Direção-geral de Saúde acredita que é um paciente do Porto, que deixou Vila Franca de Xira no dia 18 de outubro. Ou seja, tudo pode ter começado há 23 dias.

«Pensamos que já encontramos o paciente número um», afirmou, no programa Discurso Direto, da  TVI24, a subdiretora da Direção-geral de Saúde, Graça Freitas, embora tenha sublinhado que não é assim tão relevante saber quem foi a primeira pessoa, uma vez que a doença não se transmite por contágio. É importante, sim, «em termos de reconstituição da história» e dos sítios por onde passou este «senhor do Porto, que deixou Vila Franca no dia 18 de outubro e desenvolveu sintomas».
 

«Este parece-nos que será o caso índice que terá sido a primeira pessoa a infectar-se no contexto deste surto, mas ainda não temos a certeza», sublinhou a responsável da DGS.  «Isto é como uma investigação policial. Temos de reconstituir tudo, como um puzzle»


Legionella: o ponto da situação

Graça Freitas indicou que o Hospital de Vila Franca «rapidamente se apercebeu que a situação não era normal», pelo que o alerta foi dado logo que possível. De lá para cá, as equipas que estão no terreno têm tentado perceber «onde é que os doentes estiveram, onde moram, onde trabalham e que locais públicos que frequentaram».

Uma das conclusões que se podem retirar, para já, é que a contaminação não parece ter surgido num espaço específico, como um centro comercial, por exemplo. «O que os colegas de saúde pública foram fazer é [certificar-se] se [os infetados] tinham estado no mesmo sítio e não encontraram essa situação». Mas há outras hipóteses e tudo aponta para que a contaminação esteja mesmo na água, numa «instalação pública coletiva, na rede de água», que são sempre «uma fonte potencial de contaminação». 

Respondendo às perguntas dos telespectadores, Graça Freitas explicou que a doença não é rara. Existem muitos diagnósticos por ano, mas com uma dimensão destas, num tão curto espaço de tempo, é inédito.

«Um surto desta dimensão, em que de facto de repente, praticamente em 12 horas [houve muitas pessoas infectadas] foi de facto uma coisa que não é expectável. Estamos perante um surto que não é normal. A bactéria aparece, todos os anos. É sazonal e gosta muito de determinadas temperaturas (verão e outono) mas, de facto, não aparece com esta intensidade. Brotaram casos concentrados no tempo e numa zona geográfica delimitada, em três freguesias»: Póvoa de Santa Iria, Vialonga e Forte da Casa


Em nome da Direção-geral de Saúde, a responsável quis mostrar solidariedade com Vila Franca de Xira e com as pessoas infetadas. «Mas de facto surto está confinado a uma determinada zona, o que indica que deve ter havido uma zona comum origem comum de contaminação, que expandiu, libertou gotículas de agua, no interior das gotículas existem bactérias ou então circulam através da rede de água».
 
Graça Freitas assegurou que, «nestes dias, as autoridades de saúde, camarárias e ministérios da Saúde e do Ambiente, têm estado a investigar, mas também a tomar medidas».

«Neste momento, provavelmente toda a água nestas zonas [afetadas] está a sair limpa, completamente desinfetada. Houve mais cloro dentro das canalizações e procedeu-se à desinfeção na rede pública de água». «Há muitas equipas no terreno e, neste momento, a água em Vila Franca é óptima»


  Quem serão os culpados?

No que toca à responsabilização pelo que aconteceu, a subdiretora da DGS entende que é «pouco plausível» que haja um culpado, que alguém tivesse «intenção de fazer mal». «O que pode haver é uma falha de algum ponto da rede de equipamentos utilizados». O problema será, portanto, de uma falha no controlo de qualidade da água. 
  
«De vez em quando, muito raramente, há surtos, aqui e em todo o mundo», relativizou, dando como exemplo Espanha, Barcelona, onde houve 500 casos. «Felizmente é raro acontecerem surtos com esta dinâmica e intensidade».

«O importante é ser detetado rapidamente e rapidamente serem em tomadas medidas e em Portugal conseguimos fazê-lo», indicou, sem desdramatizar as mortes e quem está doente. «Estamos muito solidários» com essas pessoas. 

Certo é que a fonte da contaminação ainda não foi encontrada.

«Só quando tivermos a certeza, só quando o laboratório que está a cultivar estas bactérias [conseguir analisar] a força e a velocidade com que crescerem. Só vamos ter a certeza de uma determinada fonte quando a bactéria que encontrada na água for igualzinha à que se encontrou nas pessoas. Até lá, temos teorias de investigação».


Os conselhos a seguir

Para que alguém fique infetado, é necessário haver uma quantidade suficiente de batérias. A ingestão de água não causa dano, mas sim a inalação das gotículas contaminadas. A temperatura ótima para o crescimento da bactéria vai até aos 45 graus. Daí que se recomende que os termoacumuladores sejam regulados a 75 graus. 

Embora a DGS tenha recomendado precauções no duche, «não é risco extraordinariamente grande». Ainda assim, recomenda-se, sobretudo nas zonas afetadas (e noutras por uma questão de higiene) tirar o chuveiro do suporte e colocá-lo num balde com lixívia durante meia hora, uma vez por semana. Quanto aos ares condicionados caseiros e nos carros, ficou o reparo da subdiretora da DGS de que não funcionam como os industriais. Nesses sim, poderá haver risco. Através dos sistemas caseiros, não. 

«Lave os dentes e a louça, faça uma vida normal, sem fazer uma pressão muito grande nas torneiras», aconselhou ainda Graça Freitas. 
 
Quanto à dúvida sobre se os sistemas de refrigeração e aquecimento em transportes públicos podem ser focos de legionella, essa questão «já foi equacionada, já foram detetadas possíveis ou hipotéticas fontes que creio que não existem neste momento», indicou a responsável. «Queria reforçar que as pessoas não tenham medo dos ares condicionados, porque sistema é completamente diferente», concluiu.

Tanto o fecho das torres de refrigeração, como o impedimento das aulas de educação física em escolas são, apenas, medidas de precaução. « Felizmente esta doença não afeta praticamente ninguém abaixo dos 20 anos. É muito difícil haver criança infetada. Teria de ser criança com problemas graves de imunossupressão», tranquilizou a responsável. 

Entre 2004 e 2013 houve mais de mil internamentos e 86 mortes registadas devido a legionella, segundo os dados da Direção-geral do Sul. Nunca como este ano houve um surto tão grande, e na mesma zona.